Divagar sobre o prazer
Sábado, 22 de Abril de 1978
Hoje fiquei a pensar no prazer.
Não sei se o prazer nasce da vontade ou se é a vontade que nasce dele. Talvez seja difícil separar as duas coisas, porque aquilo que desejamos começa muitas vezes por ser apenas uma ideia e, quando essa ideia cresce dentro de nós, transforma-se numa vontade cada vez mais difícil de ignorar.
Há desejos que são simples. Outros tornam-se sonhos.
E talvez seja precisamente aí que tudo se complica.
Enquanto um desejo permanece dentro de nós, ninguém o pode prender. Não existem correntes que o segurem nem leis que o possam julgar. Podemos imaginar aquilo que quisermos e levar esse pensamento até onde a realidade não consegue chegar.
O pensamento é livre.
Talvez o prazer também devesse ser.
Mas a vontade não se contenta sempre com o sonho. Quer a realização. Quer transformar aquilo que imaginou numa coisa concreta. E é nesse momento que aquilo que parecia perfeito começa a correr o risco de deixar de o ser.
Enquanto desejamos, tudo permanece possível.
Quando conseguimos, já não.
Tenho pensado nisso também em relação à minha própria vida. Há coisas que desejo e que, enquanto continuam apenas como possibilidades, parecem ter uma força enorme. Penso nelas, imagino como seriam e, por vezes, quase consigo sentir a satisfação de as alcançar.
Mas talvez uma parte desse prazer esteja precisamente em ainda não as possuir.
O sonho pode durar indefinidamente. A realidade não.
Aquilo que desejamos pode parecer enorme enquanto está distante e, depois de alcançado, começar lentamente a perder a intensidade que tinha quando era apenas uma vontade. Não porque fosse falso, mas porque deixámos de o procurar.
É estranho.
Podemos passar muito tempo a querer uma coisa e, quando finalmente a temos, descobrir que aquilo que nos fazia correr atrás dela era também a própria distância que nos separava.
Talvez por isso algumas vontades nunca devam ser transformadas imediatamente em realidade.
Há sonhos que são mais bonitos enquanto sonhos.
Não sei se isto significa que devemos fugir daquilo que desejamos. Talvez não. Se nunca procurássemos satisfazer vontade alguma, a nossa vida seria apenas uma sucessão de desejos incompletos. Também não quero isso.
Quero viver.
Quero experimentar.
Quero descobrir aquilo que existe para além das ideias que tenho agora.
Mas começo a perceber que existe uma diferença entre querer alguma coisa e precisar dela para ser feliz. Uma vontade pode conduzir-nos, mas não devia tornar-se uma prisão.
O prazer também passa.
Pode chegar com força, ocupar tudo durante algum tempo e depois desaparecer devagar, como fumo que se perde entre as nuvens. E, quando desaparece, podemos ficar a olhar para o lugar onde esteve, sem perceber muito bem porque lhe demos tanta importância.
Talvez seja esse o sentido daquela imagem que me ficou na cabeça.
Um prazer que se desfaz e, depois, deixa apenas a mudança no ar.
Como uma tempestade num dia quente de Verão. Primeiro sentimos que alguma coisa está para acontecer. O ar parece diferente, pesado, carregado. Depois chega a tempestade e, durante algum tempo, tudo se transforma. Mas também ela acaba.
No fim, fica apenas a lembrança de que aconteceu.
Talvez a vida seja feita assim.
De vontades que nascem, de sonhos que crescem, de prazeres que chegam e de outros que desaparecem. E nós continuamos a procurar qualquer coisa que talvez nem saibamos definir.
Hoje penso que talvez o verdadeiro perigo não esteja em desejar.
Está em acreditar que a satisfação de um desejo será capaz de permanecer para sempre.
Não permanece.
Tudo passa.
Até aquilo que, enquanto o esperamos, parece não ter fim.
Talvez o prazer seja apenas um instante entre o desejo e a perda.
Um pequeno torrão de açúcar dissolvido na chicória.
Doce por um momento.
Depois, nada.
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