Quanto mais calado, mais se diz
Sexta-feira, 21 de Abril de 1978
Hoje fiquei a pensar no silêncio e naquilo que ele pode dizer quando já não encontramos vontade, ou talvez necessidade, de falar.
A vontade de viver é uma coisa estranha. Há momentos em que parece ser o maior dos prazeres e outros em que quase parece uma espécie de loucura. Talvez seja preciso estar um pouco fora daquilo que os outros consideram normal para encontrar prazer em simplesmente continuar a viver, pensar e procurar um sentido para as coisas.
Também o pensamento me parece, por vezes, um dom estranho. Dizemos que os animais não pensam como nós, mas eles entendem-se. Não precisam de grandes discursos, nem de explicações complicadas. Há qualquer coisa de directo na maneira como vivem que nós fomos perdendo à medida que aprendemos a falar.
Nós complicámos tudo com palavras.
Falamos para explicar o que pensamos, mas muitas vezes acabamos apenas por esconder aquilo que realmente queremos dizer. Ontem escrevi que a palavra pode esconder o pensamento. Hoje volto à mesma ideia por outro caminho. Talvez quanto mais falamos, menos consigamos dizer aquilo que verdadeiramente importa.
Há conversas que não levam a lado nenhum. Pessoas que falam durante horas e, no fim, continuam tão distantes umas das outras como estavam no princípio. Dizem coisas, respondem, discutem, justificam-se, mas aquilo que realmente sentem permanece escondido.
Talvez por isso o silêncio diga tanto.
Quando alguém se cala, há sempre qualquer coisa nesse silêncio que fica por descobrir. Pode ser tristeza, raiva, indiferença, medo ou simplesmente a vontade de não participar naquele ruído todo. E, às vezes, o silêncio é mais honesto do que qualquer palavra.
Tenho pensado também em mim.
Eu próprio tenho usado muito a escrita para dizer aquilo que nem sempre consigo dizer de outra maneira. Escrevo porque preciso de organizar aquilo que tenho dentro da cabeça. Talvez estas páginas sejam uma forma de falar sem ter ninguém à minha frente. Posso dizer aqui aquilo que, diante de outra pessoa, talvez ficasse preso.
Mas escrever também é uma forma de silêncio.
Enquanto escrevo, estou calado. E, no entanto, talvez seja precisamente nesse momento que mais digo.
Talvez seja essa a razão por que continuo a escrever. Não é apenas para preencher páginas. É para perceber o que penso, para descobrir o que sinto e, algumas vezes, para encontrar em mim respostas que não consigo obter através das palavras dos outros.
Há qualquer coisa de estranho nisso.
O homem inventou tantas maneiras de comunicar e, mesmo assim, continua sem saber verdadeiramente comunicar-se. Aprendeu a falar, mas nem sempre aprendeu a ouvir. Aprendeu a escrever, mas nem sempre aprendeu a dizer aquilo que realmente importa.
E eu não sou diferente.
Também tenho coisas que digo e outras que guardo. Também há pensamentos que ficam comigo porque ainda não sei como os transformar em palavras. Talvez alguns nunca cheguem a sair.
Hoje penso que isso não é necessariamente mau.
Talvez seja preciso algum silêncio para perceber o que merece ser dito.
Quanto mais calado, mais se diz.
Começo a acreditar que não é apenas uma frase. É uma maneira diferente de olhar para as pessoas e, sobretudo, para mim próprio.
Às vezes, ficar em silêncio é a única maneira de finalmente nos ouvirmos.
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