Amanhã será ontem
Quinta-feira, 20 de Abril de 1978
Hoje dei por mim a pensar numa coisa que, à primeira vista, parece não fazer sentido.
Amanhã será ontem.
Quando cheguei a esta ideia, já era tarde para tentar reconciliar aquilo que estava a pensar. Quanto mais procurava uma explicação, mais me parecia impossível encontrá-la. Havia qualquer coisa de profundamente ilógico naquilo, mas, ao mesmo tempo, havia uma verdade que eu não conseguia afastar.
Talvez porque o tempo seja uma coisa muito mais estranha do que julgamos.
Amanhã ainda não aconteceu e, no entanto, um dia chegará em que será ontem. Aquilo que hoje imagino como futuro acabará inevitavelmente por ficar para trás. O que neste momento ainda é uma possibilidade transformar-se-á numa recordação, numa coisa que aconteceu e que já não posso modificar.
E talvez seja por isso que tenho pensado tanto no meu próprio futuro.
Ontem fui à Judiciária à procura de uma possibilidade para a minha vida e voltei de orelha caída. Tinha imaginado que poderia encontrar ali uma saída e descobri que as coisas não são tão simples como parecem quando as pensamos de longe.
Hoje, ao pensar nisso, perguntei-me se esse amanhã que ontem procurei não estará já condenado a tornar-se ontem antes mesmo de eu saber exactamente o que quero dele.
Quero encontrar o meu lugar.
Quero ser independente.
Quero escrever.
Mas ainda não sei qual destas coisas fará realmente parte da minha vida daqui a alguns anos. Talvez todas. Talvez nenhuma. E é estranho pensar que aquilo que hoje me parece tão importante poderá um dia ser apenas uma recordação de quem eu fui.
Também a escrita me tem feito pensar nisso.
À dias escrevi que gostava de ser escritor. Hoje continuo a pensar nessa possibilidade. Não sei se será uma ilusão passageira ou se existe realmente dentro de mim alguma coisa que me levará por esse caminho. Mas, se continuar a escrever, talvez daqui a alguns anos possa olhar para estas páginas e perceber que já estava a procurar-me muito antes de saber quem queria ser.
É curioso.
Procuro o futuro sem saber exactamente o que procuro e, ao mesmo tempo, tudo aquilo que faço hoje está a construir um passado que ainda não existe.
Talvez seja esse o sentido de amanhã ser ontem.
Nós caminhamos para a frente, mas tudo aquilo que deixamos para trás passa a fazer parte de nós. Não podemos avançar sem acumular aquilo que fomos. Cada tentativa, cada fracasso, cada desejo, cada desilusão e cada pequena esperança acabam por ficar algures dentro de nós.
E eu tenho já demasiadas coisas dentro de mim para acreditar que posso começar outra vez como se nada tivesse acontecido.
Talvez não seja preciso.
Talvez crescer seja precisamente aprender a levar connosco aquilo que vivemos sem deixar que isso nos impeça de continuar.
Ontem procurei uma saída na Judiciária e não a encontrei. Hoje penso que talvez isso não signifique que tenha ficado sem caminho. Significa apenas que aquele caminho não era ainda o meu, ou que eu ainda não estava preparado para o seguir.
Não sei.
Ainda não consigo saber.
O futuro continua diante de mim, aberto e incompreensível.
E talvez tenha de ser assim.
Um princípio sem fim, um caminho sem destino certo.
Por enquanto, continuo a andar.
Um dia, este momento será ontem.
E talvez nessa altura eu consiga compreender quem era o homem que hoje ainda estou a tentar descobrir.
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