Uma tentativa
Quarta-feira, 19 de Abril de 1978
Hoje decidi experimentar a Judiciária como emprego.
Fui com a ideia de que talvez ali pudesse encontrar uma solução para o meu futuro. Não sabia exactamente o que iria acontecer, mas havia em mim a expectativa de que aquela tentativa pudesse resultar.
Talvez tenha sido essa a minha primeira ingenuidade.
Quando pensamos numa possibilidade antes de a experimentar, construímos mentalmente um caminho que parece muito mais simples do que é na realidade. Enquanto estamos em casa, tudo parece possível. Basta decidir, ir e tentar. Só depois percebemos que entre querer uma coisa e consegui-la existe muito mais do que a nossa vontade.
Foi isso que senti hoje.
Fui à Judiciária convencido de que poderia ser uma oportunidade e acabei por perceber que não seria tão fácil como pensava.
Vim embora de orelha caída.
É uma expressão simples, mas hoje senti exactamente isso. Não era apenas ter ido a um lugar e não ter conseguido aquilo que queria. Era regressar com a sensação de que uma possibilidade que, poucas horas antes, parecia ao alcance da mão se tinha afastado outra vez.
E talvez o que mais custe seja isso.
Quando uma coisa nunca chegou a ser uma possibilidade, não sentimos a sua perda. Mas quando começamos a acreditar que ela pode acontecer, mesmo por pouco tempo, já não conseguimos voltar ao ponto de partida sem alguma desilusão.
Eu tinha ido procurar uma saída.
Voltei sem ela.
Não sei se esperava demasiado ou se simplesmente não estava preparado para encontrar dificuldades tão cedo. Talvez tenha sido apenas mais uma tentativa que não correu como eu imaginava. Mas hoje essa pequena derrota pareceu-me maior do que provavelmente é.
Tenho pensado muito no futuro.
Quero escrever. Quero ser independente. Quero encontrar o meu lugar. E, ao mesmo tempo, ainda não sei muito bem qual é esse lugar.
Ontem passei a tarde a escrever uma carta para alguém que está longe. Hoje fui procurar uma possibilidade de emprego. São coisas muito diferentes, mas talvez façam parte da mesma inquietação.
Quero que alguma coisa aconteça.
Quero sentir que estou a caminhar para algum lado.
E hoje tive a sensação contrária. Dei um passo e voltei para trás.
Não gosto de regressar de mãos vazias.
Talvez amanhã já veja isto de outra maneira. Mas hoje não consigo esconder a desilusão.
Fui à Judiciária à procura de uma possibilidade para a minha vida.
E saí de lá com a certeza de que ainda não sei onde ela começa.
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