Uma carta inesperada


Terça-feira, 18 de Abril de 1978


Hoje tive uma surpresa logo de manhã, ainda antes de me levantar.

A minha mãe entregou-me uma carta que eu já não esperava. Era de uma rapariga inglesa chamada Julie Iceton.

Não a conhecia. Nem sequer a conhecia de vista. Havia apenas aquela carta, chegada de longe, Inglaterra, trazendo até mim as palavras de alguém que, para mim, era ainda uma desconhecida.

Mesmo assim, fiquei radiante.

Entre quem escreve e quem lê existe uma distância que não desaparece. E, no entanto, as palavras conseguem atravessá-la.

Foi isso que senti ao ler a carta de Julie.

Ela contou-me algumas coisas sobre si. Tinha quinze anos e vivia com a família, constituída pelos pais e dois irmãos mais novos. Disse-me também como era, o cabelo curto e os olhos castanhos. Eram pequenos pormenores, mas eram os únicos que eu tinha para imaginar a pessoa que estava do outro lado daquela folha.

É curioso como podemos começar a construir uma imagem de alguém sem nunca termos estado diante dessa pessoa.

Eu não sabia como falava, como se ria, como se comportava. Não sabia sequer se aquilo que imaginava correspondia minimamente à realidade. Sabia apenas aquilo que ela tinha escolhido contar-me.

E talvez isso tornasse tudo mais interessante.

Passei grande parte da tarde a escrever-lhe uma resposta.

Para um principiante, não ficou curta.

Tinha muito para dizer e não me apetecia limitar-me a responder às perguntas ou às informações que ela me tinha dado. Queria também que ela soubesse alguma coisa de mim. Queria que, quando lesse a minha carta, pudesse começar a imaginar quem estava deste lado.

Enquanto escrevia, pensei que uma amizade podia começar de uma maneira estranha.

Duas pessoas que nunca se encontraram podiam começar a conhecer-se através de palavras. Cada carta seria uma espécie de aproximação, lenta e imperfeita, feita à distância.

Ontem pensava em ser escritor.

Hoje passei a tarde inteira a escrever para alguém que estava longe.

Talvez seja apenas uma coincidência.

Mas gostei dela.

Há qualquer coisa de reconfortante em descobrir que, algures, existe alguém à espera de ler aquilo que escrevemos.
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