Ser escritor...


Segunda-feira, 17 de Abril de 1978


Hoje voltei a pensar na escrita.

Às vezes penso que seria fácil calar-me. Bastaria virar a página e deixar para trás aquilo que não disse. O que fica por escrever desaparece aos poucos, pelo menos para quem não o viu nascer. Talvez seja essa uma das vantagens de uma página. Ela pode guardar aquilo que dizemos, mas também pode esconder aquilo que decidimos não dizer.

Eu gostava de ser escritor.

Digo isto ainda com alguma desconfiança, como quem admite uma vontade que sabe poder ser apenas uma ilusão. Gostava de poder escrever por minha conta, fazer dos meus escritos uma espécie de trabalho diário, uma rotina que dependesse apenas de mim.

Livre.

Independente.

Talvez seja isso que verdadeiramente me atrai na ideia de escrever. Não apenas o facto de poder pôr palavras no papel, mas a possibilidade de construir qualquer coisa que seja minha, sem ter de pedir licença a ninguém para pensar, imaginar ou dizer aquilo que sinto.

Alimento esta ideia com aquilo que gostaria de escrever um dia.

E pergunto-me como seria se, daqui a alguns anos, ainda continuasse a pensar da mesma maneira. Talvez então percebesse que não era apenas uma ilusão passageira. Talvez descobrisse que esta vontade de escrever já estava dentro de mim muito antes de eu saber exactamente o que fazer com ela.

Mas há também outra ideia, muito mais ambiciosa, que me passa pela cabeça.

E se um dia deixasse de ser um escritor particular?

E se aquilo que escrevesse encontrasse outras pessoas?

Imagino então a fonte, as Tágides do Douro a inspirarem-me, como se o rio pudesse oferecer à minha escrita alguma coisa que eu ainda não possuo. Penso em Eneias, em Ulisses, n'Os Lusíadas, e percebo que, nesse momento, já estaria a querer fazer uma coisa muito diferente.

Já não seria apenas eu a escrever para mim.

Seria alguém a tentar criar alguma coisa que pudesse permanecer.

Mas talvez aí estivesse também o perigo.

Porque, se chegasse a esse ponto, deixaria de ser apenas aquilo que sou agora. A escrita transformar-me-ia noutra pessoa.

E talvez seja precisamente por isso que, neste momento, ainda prefiro imaginar.

Porque, enquanto tudo não passa de uma vontade, continuo a ser eu.

E isso, por agora, chega-me.


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