A palavra e o pensamento
Domingo, 16 de Abril de 1978
Hoje fiquei a pensar no ser humano.
Há frases que parecem dizer muito e, afinal, podem esconder quase tudo. Talvez por isso me tenha ocorrido que a palavra foi dada ao homem para esconder o pensamento. Quanto mais penso nisso, mais sentido encontro.
O homem fala, explica-se, justifica-se, discute e promete. Diz aquilo que quer que os outros ouçam e guarda muitas vezes aquilo que verdadeiramente pensa. Pode passar uma vida inteira a falar sem chegar a mostrar-se por dentro.
É um enigma.
E, quanto mais observo as pessoas, mais dificuldade tenho em acreditar que sejam realmente os seres racionais que dizem ser. Há qualquer coisa de selvagem no homem, como se a evolução lhe tivesse dado outras formas e outros conhecimentos sem lhe ter retirado completamente aquilo que trazia de trás.
Talvez seja apenas um selvagem que aprendeu a viver de outra maneira.
A sociedade que construímos também não me parece muito diferente de uma selva. Só mudámos as árvores por casas, as feras por homens e os gritos por palavras. Continuamos a disputar espaço, a atropelarmo-nos uns aos outros e a procurar aquilo que julgamos poder tornar-nos superiores.
Chamamos-lhe civilização.
Mas às vezes pergunto-me o que haverá realmente de civilizado nisto tudo.
Há uma espécie de podridão que se esconde por baixo daquilo que mostramos. E talvez seja isso que mais me incomoda. Não é a pobreza nem a riqueza, não é o luxo nem a falta dele. É a importância que damos a coisas que, para mim, pouco significam.
Vejo pessoas correrem atrás do que chamam conforto, riqueza ou luxo e não consigo sentir por isso a admiração que talvez esperassem. Pelo contrário, começo a sentir uma indiferença que, algumas vezes, se aproxima do desprezo.
Talvez seja injusto pensar assim.
Mas é assim que hoje vejo o mundo.
E, quando comparo tudo isto com um animal no seu próprio ambiente, a comparação torna-se ainda mais estranha. Um macaco numa árvore parece-me, de certa maneira, mais verdadeiro. Está onde deve estar, não pretende ser outra coisa, não precisa de fingir uma importância que não tem.
Nós, pelo contrário, construímos um mundo cheio de aparências e depois passamos a vida a acreditar nelas.
Talvez seja por isso que a palavra esconda tanto.
Falamos para os outros e, ao mesmo tempo, escondemo-nos deles.
E talvez também de nós próprios.
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