Um beco sem saída
Sábado, 15 de Abril de 1978
Hoje dei por mim a pensar em coisas que talvez não tenham grande importância e, no entanto, ficaram a ocupar-me a cabeça.
Uma pasta de papel, por exemplo.
É uma coisa mole, suja, sem qualquer importância. Passa por nós sem que reparemos nela. Pode estar no chão, abandonada num canto, e ninguém se detém para a olhar. É apenas mais uma coisa entre tantas outras.
Talvez seja assim também a vida de muita gente.
Passamos uns pelos outros sem nos vermos. Há pessoas que gritam e ninguém as ouve. Há outras que sofrem à nossa frente e conseguimos continuar o nosso caminho como se nada estivesse a acontecer. Uma multidão pode fazer um ruído enorme e, mesmo assim, cada pessoa permanecer sozinha dentro do seu próprio ruído.
Fiquei a pensar nisso.
Somos tantos, corremos todos para algum lado, atropelamo-nos, levantamos a voz, defendemos aquilo que julgamos ser nosso e, no fim, talvez ninguém saiba muito bem para onde vai.
É uma espécie de confusão organizada.
E talvez seja isso que mais me incomoda. Não o barulho, nem sequer a violência das pessoas umas contra as outras, mas a facilidade com que tudo se torna normal.
Há dias em que sinto que estou dentro dessa multidão e outros em que me vejo de fora, a observá-la. Não sei qual das duas posições é pior.
Depois pensei num beco escuro.
Um beco sem saída pode ser, por vezes, o único caminho que encontramos. Entramos porque não vemos outro e continuamos a avançar, mesmo sem sabermos onde termina. Só percebemos que não há saída quando já estamos demasiado fundo.
Talvez a vida também seja assim.
Há caminhos que escolhemos porque parecem ser os únicos possíveis. Depois descobrimos que nos conduziram para um lugar onde já não sabemos como voltar atrás.
E então resta olhar para a frente.
Mas o que existe à frente pode ser ainda mais assustador.
Imaginei esse fundo escuro como um enorme buraco, uma profundidade que parece abrir-se debaixo dos nossos pés. E, acima de tudo, o Atlas a sustentar o mundo, como se até aquilo que parece firme pudesse um dia deixar de o ser.
Somos tão pequenos.
Talvez seja essa a verdade que às vezes me assusta mais. Pensamos que somos importantes, que controlamos a nossa vida, que sabemos para onde vamos, mas basta olhar um pouco mais longe para perceber que somos apenas uma pequena parte de qualquer coisa muito maior.
Hoje senti-me assim.
Pequeno no meio de uma multidão.
Perdido num caminho que não sei onde acaba.
E, por momentos, com a sensação de estar diante de um beco sem saída.
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