Porquê?

Sexta-feira, 14 de Abril de 1978


Porquê?

É uma palavra de quem pergunta e espera uma resposta. Mas também pode ser a palavra de quem já perguntou tantas vezes que começa a desconfiar de que resposta alguma chegará.

Porque havemos de acreditar em alguma coisa que não vemos?

Porquê Deus, porquê?

Há perguntas que parecem simples quando saem da boca, mas que depois ficam dentro de nós, sem encontrar sítio onde pousar. Talvez a fé seja precisamente isso, acreditar apesar de não vermos. Mas quando alguma coisa nos dói ou quando aquilo em que acreditamos parece distante, a pergunta regressa.

Porquê?

E então surgiu-me a imagem de alguém curvado sobre si próprio, olhos baixos, frustrado, envergonhado por uma culpa que nem sequer era sua. Alguém que parecia querer desaparecer por aquilo que sentia ser.

Era como se outra voz lhe falasse.

Uma voz cruel.

Diz-lhe que fede. Manda-o arrumar-se. Diz-lhe que não quer absorver aquele ser insuportável. Diz-lhe que ele não é digno de ser quem é.

E, como se isso ainda não bastasse, manda-o mudar de nome. Ter vergonha. Não olhar. Não ouvir.

Um cão, pelo menos, continua a ser um cão.

E tu não és nada.

A frase é brutal.

E, no entanto, depois de toda aquela violência, aparece outra voz.

A voz que responde.

Cala-se, reconhece a acusação, mas não a aceita. Diz que a outra voz está enganada. E, em vez de permanecer submissa, ameaça esmagá-la também.

Calcar-lhe-á a cauda.

Foge.

Talvez seja isso que o poema seja, no fundo.

Uma luta entre duas vozes.

Uma que humilha e outra que, mesmo ferida, se recusa a aceitar que aquilo seja toda a verdade.

E talvez por isso a pergunta do princípio permaneça sem resposta.

Porquê Deus, porquê?

Hoje não encontrei a resposta.

Encontrei apenas a pergunta e, dentro dela, alguma coisa que ainda resiste.


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