O tempo não pára

Quinta-feira, 13 de Abril de 1978

Que terei para contar deste dia?

Pouco, muito pouco. Foi mais um dia aborrecido, frio e até enervante. Houve momentos que passaram depressa e outros que pareciam não ter vontade nenhuma de passar. No fim, ficou aquela sensação estranha de ter vivido um dia inteiro sem que nele tivesse acontecido alguma coisa verdadeiramente digna de ser guardada.

E, no entanto, aqui estou a escrever sobre ele.

Talvez seja precisamente isso que o diário faz. Mesmo quando nada acontece, obriga-me a olhar para o dia e a perguntar o que ficou dele. E às vezes aquilo que fica não é um acontecimento. É apenas um pensamento.

O tempo vai passando.

Tenho pensado no que será, afinal, o tempo. À primeira vista parece apenas um código estabelecido para distinguir o dia da noite, as horas umas das outras, os momentos que vêm antes daqueles que ainda hão-de chegar. Uma maneira de ordenar a existência.

Mas não pode ser só isso.

O tempo é qualquer coisa que nos acontece enquanto julgamos estar simplesmente a viver.

Envelhece-nos sem pedirmos licença. Leva-nos de um lugar para outro, muda aquilo que pensamos, altera as pessoas, transforma situações e, muitas vezes, faz tudo isso tão devagar que só damos por isso quando já estamos diferentes.

Quanto mais pensamos nele, mais difícil parece defini-lo.

Talvez o tempo seja tudo aquilo que fazemos e também tudo aquilo que não fazemos. Seja o nascer e o morrer. Seja cada escolha, cada espera, cada oportunidade aproveitada e cada oportunidade perdida.

O tempo parece estar em toda a parte e, ao mesmo tempo, não podemos vê-lo.

Talvez seja por isso que às vezes um dia como o de hoje me deixa uma sensação tão difícil de explicar. Por fora, quase nada aconteceu. Por dentro, passou mais uma pequena parcela de uma vida que continua a avançar sem pedir autorização.

Imagino o tempo como um grande relógio.

O universo será a sua base. As estrelas e os planetas serão o seu mecanismo. E a humanidade será a corda que o mantém em movimento.

Nós vivemos dentro desse relógio.

E o mais curioso é que podemos tentar esquecê-lo, mas nunca conseguimos fazê-lo parar.

O tempo não pára.
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