A roleta

Quarta-feira, 12 de Abril de 1978

Já há alguns dias que sabia que a menina Rita estava no hospital e continuava sem ter tido oportunidade de a visitar. Pensava nisso com alguma preocupação, sobretudo porque sabia que estava muito doente e que a sua vida familiar não era fácil.

Segundo a minha irmã, havia dificuldades dentro daquela casa. Os pais eram pouco sociáveis e havia também referências a maus tratos físicos. Não conhecia directamente essa realidade, mas bastava-me saber que existia para me deixar inquieto. Há coisas que nos incomodam mesmo quando delas só conhecemos uma parte.

A Rita estava noiva. Mas também aí havia qualquer coisa que me preocupava. Pelo que me chegava, através das reacções que ele tinha para com ela, não parecia corresponder à imagem do homem que eu entendia dever estar ao lado de uma mulher.

Hoje vejo que essa maneira de pensar estava ainda presa a uma visão demasiado centrada no homem, como se a felicidade de uma mulher dependesse de encontrar o homem certo e como se coubesse ao homem definir o que era esse «certo». Eu próprio não me apercebia ainda da contradição. Preocupava-me com o sofrimento dela, mas olhava para a situação a partir de critérios que eram meus.

Mesmo assim, tive pena que ela estivesse naquela situação.

Talvez tenha sido essa mistura de preocupação, impotência e pensamentos soltos que me levou ao poema.

Uma roleta, um destino…

A vida parecia-me um jogo em que nem sempre sabíamos onde iria parar a bola. Havia coisas que escolhíamos e outras que simplesmente nos aconteciam. Pessoas que apareciam, pessoas que desapareciam, caminhos que se abriam e outros que se fechavam sem que conseguíssemos perceber porquê.

Escrevi então:

Uma roleta, um destino…
Tendo a vida como um jogo
É uma vida sem inveja
Tudo velho. Nada novo
Uma roleta, um destino
Um destino para o povo.

Talvez fosse apenas uma divagação. Mas havia qualquer coisa naquela imagem da roleta que me atraía. A ideia de que a vida podia mudar de direcção por uma pequena volta, por um acaso, por uma escolha ou simplesmente porque sim.

Hoje tinha pensado na Rita, no hospital, naquilo que sabia da sua vida e naquilo que não sabia. E, sem dar por isso, acabara a pensar na própria vida como se também ela estivesse sobre uma mesa de jogo.

Só que não sabia ainda quem fazia girar a roleta.



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