Desculpabilização
Terça-feira, 11 de Abril de 1978
Não seria justo comigo mesmo culpar-me por alguma coisa que nunca fiz. Ainda que tivesse feito, estaria consciente do que fizera e preparado para receber o castigo merecido. Mas, se estou a ser castigado injustamente, então é tempo de pôr cobro a isso.
Talvez o meu mal tenha sido sempre o sexo oposto, que me atraiu e tantas vezes me desolou. Há qualquer coisa nas mulheres que me perturba, que me prende e que depois me deixa a tentar perceber onde errei.
Talvez por isso eu e o Manel tenhamos entrado hoje numa espécie de jogo. Cada um procura a pessoa ideal para o outro. Primeiro faz-se uma espécie de estudo, uma pesquisa, como se fosse possível descobrir uma pessoa através de características, preferências e combinações e depois entregá-la ao outro como quem apresenta uma solução.
Até ver, não resultou.
Mas a ideia divertiu-nos.
Talvez seja disso que preciso agora. De coisas que não tenham importância nenhuma. De poder falar, rir e inventar jogos sem estar sempre a procurar uma resposta para aquilo que já aconteceu.
Ainda me encontro demasiado perto do que ficou para trás. Sei isso, embora nem sempre o queira admitir.
Hoje, porém, houve qualquer coisa diferente. Pela primeira vez depois de tanto tempo, a minha atenção não esteve inteiramente presa a uma única pessoa. Pode parecer pouco. Talvez seja mesmo muito pouco. Mas, por qualquer razão, sinto que já consigo olhar para o dia seguinte sem procurar nele aquilo que perdi.
É apenas um começo.
E talvez seja precisamente disso que preciso.
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