Capítulo I
É nesse lugar que António entra agora.
O que viveu não desapareceu. Ficou dentro dele, sedimentado em gestos, reacções, desejos, receios e numa maneira muito própria de olhar para os outros e para si mesmo. As experiências que o trouxeram até aqui continuarão, de uma forma ou de outra, a acompanhá-lo. Algumas poderão tornar-se aprendizagem. Outras talvez continuem a perturbá-lo. E algumas poderão ainda revelar, mais adiante, consequências que ele não consegue sequer imaginar.
Não será fácil.
António cresceu emocionalmente, mas esse crescimento não trouxe equilíbrio. Pelo contrário, há ainda nele uma espécie de desordem sentimental que o faz oscilar entre a necessidade de sentir intensamente e a dificuldade de compreender inteiramente aquilo que sente. O seu modo de se relacionar com o afecto continuará a ser marcado por essa procura quase inquieta de uma felicidade que imagina poder encontrar na pessoa certa. E haverá momentos em que a razão parecerá finalmente vencer a emoção, apenas para descobrir que o coração não costuma aceitar ordens com facilidade.
Mas alguma coisa está a mudar.
A escrita começou por ser companhia. Tornou-se confidente. Agora começa a transformar-se em refúgio.
Cada vez mais, António encontra na página um lugar onde pode permanecer quando não sabe bem onde colocar aquilo que traz dentro de si. Escrever permite-lhe pensar sem ter de responder imediatamente, experimentar ideias sem as defender perante ninguém, transformar inquietações em palavras e, talvez, compreender sentimentos que ainda não consegue compreender enquanto os vive.
E há qualquer coisa a crescer.
A escrita ganha espaço. Ganha importância. Ganha uma espécie de autonomia que começa a ultrapassar o simples registo dos dias. António ainda não sabe até onde isso o poderá levar. Nem sequer sabe se o levará a algum lugar. Sabe apenas que, quando escreve, alguma coisa acontece.
Talvez seja apenas uma necessidade passageira.
Talvez seja o princípio de outra coisa.
O futuro começará a trazer-lhe possibilidades, algumas inesperadas, outras aparentemente pequenas, mas capazes de abrir portas que agora ainda parecem apenas frestas. Haverá novas experiências, novas pessoas, novas ideias e uma relação diferente com o mundo. E, à medida que essas experiências forem acontecendo, António continuará a descobrir que crescer não significa deixar para trás aquilo que fomos. Significa aprender a viver com aquilo que somos e com aquilo em que lentamente nos vamos transformando.
Não será uma transformação limpa nem linear.
Haverá avanços, recuos, entusiasmos e desilusões. Haverá dúvidas sobre o que quer, sobre quem é e sobre o lugar que poderá ocupar entre os outros. Haverá ainda uma certa inquietação romântica, talvez mais persistente do que ele imagina, porque há pessoas que aprendem depressa com a razão e muito devagar com o coração.
Mas, por agora, não é preciso saber tudo.
Basta perceber que o caminho se abriu.
António está diante de uma vida que começa a parecer maior do que os acontecimentos que até aqui lhe ocuparam quase todo o horizonte. E, enquanto procura descobrir o que fazer com essa liberdade, vai descobrindo também uma outra forma de se procurar a si próprio.
A escrita estará lá.
Cada vez mais presente.
Cada vez mais necessária.
E talvez, sem que ele ainda o saiba, venha a tornar-se muito mais do que um refúgio.
O resto pertence ao tempo.
E o tempo, como António ainda há-de descobrir muitas vezes, raramente revela de uma só vez aquilo que está a preparar.
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