Prólogo - Volume V
Este é o quinto volume.
Não começa uma história nova. Continua uma história que começou muito antes, quando um rapaz decidiu escrever para o papel aquilo que talvez não soubesse dizer a ninguém. Desde então, passaram-se anos, páginas e muitas vidas dentro da mesma vida. O que agora começa é apenas mais uma etapa desse percurso.
Nos quatro volumes anteriores ficou registada uma adolescência em movimento, primeiro quase sem consciência de que estava a construir uma história. Vieram os primeiros passos, as amizades, os sonhos, as descobertas e as inquietações de quem começava a olhar para o mundo e a tentar encontrar nele um lugar.
Depois chegou a rotina dos dias, com tudo aquilo que a rotina tem de aparentemente insignificante e, afinal, de essencial. A vida foi-se fazendo de pequenas coisas: pessoas, lugares, conversas, deslocações, estudos, encontros e desencontros. O rapaz que escrevia começava, sem perceber inteiramente, a descobrir que o quotidiano também podia ser matéria de memória.
No terceiro volume, alguma coisa mudou.
As emoções começaram a ganhar outro peso. A amizade deixou de ser suficiente para explicar certos sentimentos e surgiram as primeiras paixões verdadeiramente capazes de alterar a maneira de olhar o mundo. A Dila entrou nessa história e, com ela, vieram a descoberta, a entrega, a insegurança, o desejo e também a dor. Foi o tempo em que o coração começou a falar mais alto do que a razão.
Mas crescer também é descobrir que nem sempre sabemos cuidar daquilo que amamos.
O quarto volume levou essa aprendizagem muito mais longe. Houve culpa, afastamento, reencontros, esperança e desilusão. A Dila ficou para trás e Lina ocupou um lugar que parecia poder preencher o vazio deixado pela história anterior. Durante algum tempo, pareceu que a vida podia recomeçar a partir daí.
Não recomeçou.
A relação com Lina foi-se tornando cada vez mais intensa e, ao mesmo tempo, mais frágil. A paixão transformou-se em dependência, a esperança em angústia e a tentativa de conservar aquilo que se perdia acabou por revelar feridas que vinham de muito antes. O adolescente que julgava estar a lutar pelo amor começou, lentamente, a confrontar-se consigo próprio.
Foi também nesse período que apareceram, com maior nitidez, algumas das contradições de quem escrevia. A arrogância escondia insegurança. A superioridade escondia medo. A revolta contra o mundo escondia muitas vezes uma dificuldade em compreender o próprio mundo interior.
E, por baixo de tudo isso, começava a nascer outra coisa.
A escrita.
Os primeiros poemas, as reflexões, as personagens imaginadas, as divagações sobre a vida e a morte, o amor, a sociedade, a liberdade, o tempo e a condição humana começaram a ocupar cada vez mais espaço. Nem sempre havia clareza. Nem sempre havia coerência. Por vezes havia apenas uma frase, uma imagem ou uma inquietação que procurava uma saída.
Mas havia uma procura.
Os quatro volumes anteriores são, afinal, o registo dessa procura: a procura de um lugar no mundo, de uma identidade, de uma explicação para os sentimentos e, talvez mais profundamente, daquilo que significava ser António.
O quarto volume terminou quando essa longa batalha emocional chegou a um ponto de ruptura.
Não há, contudo, vitórias definitivas.
A vida não funciona assim.
O fim de uma relação não apaga o que aconteceu. O sofrimento não desaparece porque decidimos seguir em frente. As pessoas que passaram por nós continuam, de uma maneira ou de outra, a fazer parte daquilo que somos. Algumas ficam na memória. Outras transformam-se em perguntas. Outras ainda tornam-se cicatrizes que só muito mais tarde conseguimos reconhecer.
É a partir daqui que começa este quinto volume.
«Novo Ciclo» não significa esquecer o passado. Significa avançar levando-o connosco.
O rapaz que abre estas páginas já não é exactamente aquele que começou a escrever os primeiros diários. Ainda conserva muitas das suas ilusões, dos seus defeitos, das suas certezas e das suas contradições. Continua a procurar respostas e continua, muitas vezes, a procurar-se através dos outros.
Mas alguma coisa começou a mudar.
O olhar começa lentamente a afastar-se daquilo que perdeu e a procurar outras possibilidades. A escrita ganha espaço. As ideias tornam-se mais ousadas. A imaginação começa a ultrapassar os limites do diário. O mundo exterior volta a reclamar a sua atenção.
Há novas pessoas, novas perguntas, novas experiências e novas possibilidades à espera das páginas que ainda não foram escritas.
Não sabemos, porém, o que delas nascerá.
Nem devemos saber.
Este diário foi escrito sem que o seu autor conhecesse o futuro. É precisamente essa ignorância que lhe dá uma parte da sua verdade. Cada página era então uma descoberta. Cada dia podia trazer uma alegria inesperada, uma desilusão, uma amizade, uma revelação ou simplesmente mais uma noite diante de uma folha de papel.
É assim que este volume deve ser lido.
Não como a continuação previsível de uma história, mas como a continuação de uma vida que ainda não sabe para onde vai.
Depois de quatro volumes de aprendizagem, paixão, erro, perda e descoberta, abre-se agora um espaço diferente.
Um novo ciclo.
A cortina permanece fechada.
Do outro lado há dias que ainda não foram vividos, palavras que ainda não foram escritas e escolhas que ainda não foram feitas.
E é justamente por isso que vale a pena continuar.
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