Epílogo do Volume IV
O Horizonte depois da Tempestade
Há histórias que terminam quando duas pessoas deixam de se procurar.
E há outras que só terminam quando uma delas deixa finalmente de procurar no passado aquilo que já não pode encontrar.
O Volume IV termina assim.
Começou num tempo em que António ainda carregava consigo a perda de Dila. A ferida não estava fechada e, embora a vida continuasse a acontecer à sua volta, uma parte dele permanecia presa àquilo que tinha ficado para trás. A chegada de Lina pareceu abrir uma possibilidade diferente. Não apenas porque surgiu alguém novo, mas porque António quis acreditar que a felicidade podia começar outra vez no mesmo lugar onde antes tinha encontrado a dor.
E acreditou.
Acreditou com a intensidade própria de quem ainda não aprendeu a distinguir aquilo que deseja daquilo que realmente existe.
Depois vieram os dias felizes, as palavras, os encontros, a espera, a inquietação, o ciúme, as limitações, as dúvidas e a necessidade cada vez maior de compreender o que se passava entre os dois. Quanto mais António procurava certezas, mais se perdia dentro das perguntas.
A relação foi-se tornando um lugar onde ele procurava aquilo que lhe faltava.
E esse foi talvez o seu maior erro.
Porque ninguém pode ser responsável por preencher inteiramente o vazio de outra pessoa.
Quando a relação terminou, António não ficou apenas sem Lina. Ficou também perante si próprio.
Foi essa a parte mais difícil.
A ruptura de Fevereiro não resolveu nada de imediato. Vieram o luto, a negação, as recordações, a vontade de telefonar, a tentação de procurar sinais onde talvez já não existissem, a raiva, a tristeza e aquela espécie de esperança que sobrevive mesmo quando já não tem lugar onde pousar.
Durante algum tempo, Lina continuou a ocupar um espaço enorme dentro dele.
Mas o espaço começou a diminuir.
Não aconteceu de uma vez. Não houve uma manhã em que António acordasse transformado. Houve antes pequenas mudanças. Uma pergunta que deixou de ser feita. Um telefonema que já não aconteceu. Um olhar que deixou de procurar outro olhar. Uma lembrança que apareceu sem provocar a mesma dor.
E, sobretudo, houve uma descoberta silenciosa.
A vida continuava.
Em Março, António começou a olhar para trás com outros olhos. Dila voltou à memória não como uma história que pudesse ser recuperada, mas como uma parte daquilo que ele próprio tinha sido. Algumas culpas antigas reapareceram. Algumas ilusões começaram a perder a força. E, pouco a pouco, a história com Lina deixou de ser apenas uma história sobre aquilo que ela lhe tinha feito.
Passou também a ser uma história sobre aquilo que ele tinha feito consigo próprio.
Talvez esse seja o verdadeiro crescimento deste volume.
Não o facto de António ter sofrido.
Sofrer, por si só, não transforma ninguém.
O que transforma é aquilo que fazemos depois de sofrer.
Em Abril, essa transformação começou finalmente a tornar-se visível.
Primeiro através das palavras. Depois através da distância. Por fim, através de uma decisão.
A 9 de Abril, António decidiu romper tudo com Lina. Ainda havia dúvida. Ainda havia tristeza. Ainda havia orgulho misturado com a decisão.
No dia seguinte já não havia a mesma dúvida.
Havia pena.
Havia desgosto.
Mas já não havia aquela necessidade de continuar a segurar uma história apenas porque um dia tinha acreditado nela.
Foi nesse momento que “Novos Horizontes” encontrou verdadeiramente o seu significado.
O horizonte não era Lina.
Também não era Dila.
Nenhuma das duas mulheres podia representar aquilo que António procurava para toda a sua vida.
O horizonte era a possibilidade de continuar.
É uma diferença pequena nas palavras, mas enorme na vida.
António termina este volume sem ter encontrado a felicidade que procurava. E isso é importante. Seria falso terminar aqui com uma recompensa, como se depois de tanta dor lhe fosse devido um final feliz.
Ele termina apenas com alguma coisa mais modesta e talvez mais valiosa.
A possibilidade de escolher outra vez.
Ainda não sabe quem será.
Ainda não sabe o que fará da sua vida.
Ainda não sabe quais serão as próximas pessoas a entrar nela, quais irão ficar ou quais acabarão por partir.
Não sabe sequer que, dentro de poucos dias, outras perguntas começarão a ocupar-lhe o pensamento. A escrita ganhará espaço. A ideia de ser escritor deixará de ser apenas uma fantasia distante. Uma carta inesperada abrirá uma nova forma de comunicação com alguém que ele nem conhece. E outras possibilidades, até profissionais, começarão a surgir diante dele.
Mas tudo isso pertence ao futuro.
E o futuro, nesta noite de 10 de Abril, ainda é apenas uma porta fechada.
António sabe apenas que não quer continuar diante da porta que acabou de fechar.
Durante quase dez meses, atravessou perdas, esperanças, paixões, ilusões e desilusões. Cresceu sem perceber que estava a crescer. Errou sem saber que os erros estavam a construir nele uma consciência nova. Procurou nos outros respostas para perguntas que ainda não sabia formular.
Agora começa a perceber que terá de procurá-las também em si.
Talvez seja essa a verdadeira viagem deste volume.
Não a viagem de uma rapariga para outra.
Nem sequer a viagem de uma desilusão para outra esperança.
É a viagem de um rapaz que começou por querer ser amado e terminou a descobrir que, antes de escolher alguém para caminhar ao seu lado, precisava de descobrir para onde queria caminhar.
O horizonte continua lá.
A montanha também.
A flor silvestre que António imaginou no cimo ainda não foi encontrada.
Mas ele já começou a subir.
E talvez, pela primeira vez, não esteja a subir para chegar a alguém.
Está a subir para descobrir quem é.
A porta fechou-se.
Não foi o fim da viagem.
Foi apenas o momento em que António deixou de olhar para trás.
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