Seguir em frente

Segunda-feira, 10 de Abril de 1978

Ontem decidi terminar, mas ainda fiquei na dúvida.

Hoje fui testemunha e a dúvida deixou de existir.

Agora tenho a certeza.

Não sinto o coração despedaçado como talvez sentisse noutras ocasiões. Sinto pena dela e desgosto por mim próprio, por me ter enganado durante tanto tempo. É estranho chegar a uma certeza destas e descobrir que ela já não dói da mesma maneira. Talvez porque, entretanto, alguma coisa dentro de mim tenha mudado.

Não terei rancor.

Nem ódio.

Apenas pena e desgosto por me ter enganado.

Durante muito tempo procurei uma explicação para aquilo que me acontecia. Procurei-a na Lina, em mim, nos outros, nas circunstâncias, nas palavras que disse e nas que ficaram por dizer. Talvez tenha procurado demasiado fora aquilo que também precisava de compreender dentro de mim.

Ela não era a pessoa escolhida para me fazer feliz.

Escrevo isto agora com uma serenidade que há algum tempo não seria capaz de encontrar. Não significa que tudo tenha deixado de importar. Significa apenas que já não quero continuar a lutar por aquilo que não pode ser meu.

E, olhando para trás, vejo quanto caminho ficou para trás.

Houve a perda de Dila e aquilo que ela deixou em mim. Houve depois a tentativa de voltar a viver, a aproximação de Lina, a esperança de que desta vez pudesse ser diferente. Vieram os momentos bons, a paixão, os obstáculos, o ciúme, as dúvidas, as esperas, as desilusões e tudo aquilo que fui escrevendo para tentar perceber o que não conseguia resolver de outra maneira.

Cheguei a pensar que não conseguiria sair disto.

Cheguei a confundir insistência com esperança e esperança com felicidade.

Hoje sei que uma pessoa também pode ficar presa àquilo que deseja, mesmo quando já percebeu que o desejo deixou de corresponder à realidade.

Foi preciso passar por tudo isto para o compreender.

É sempre bom uma pessoa passar por tudo. Sei que o fogo queima porque já me queimei. Por isso, se voltar a encontrar outro fogo, talvez saiba reconhecê-lo melhor. Não porque tenha deixado de acreditar, mas porque já conheço alguma coisa daquilo que custa acreditar sem ver.

Terei outras ilusões.

Outras miragens.

Talvez volte a ser atraído por sereias. Talvez volte a errar. Não posso saber.

Mas continuarei a procurar.

Serei fanático, se for preciso, mas não fugirei nunca ao dever e ao direito de fazer uma boa escolha.

Se está no cimo daquela montanha a flor silvestre que me dará a vida, não haverá obstáculo natural ou artificial que me impeça de subir.

Quero chegar à felicidade.

Quero chegar ao prazer de estar vivo e de viver a escalada para a vida.

Agora percebo que esta subida não começou hoje.

Começou muito antes, talvez quando perdi aquilo que julgava não poder perder. Depois voltei a tentar, voltei a acreditar e voltei a cair. Cada vez trouxe comigo alguma coisa que antes não tinha.

Hoje trago a certeza de que não posso passar a vida a olhar para trás.

Novos horizontes não significam que o passado desapareça.

Significam que já consigo olhar para além dele.

A história com Lina termina aqui.

Não com rancor, nem com ódio.

Termina com pena, desgosto e, sobretudo, com a consciência de que me enganei.

Mas eu continuo.

E talvez seja isso que importa.

Amanhã haverá outro dia.

Não sei ainda o que ele me trará. Sei apenas que já não quero recebê-lo a olhar para a mesma porta.

Há outras coisas lá fora.

Outras perguntas.

Outros caminhos.

E talvez, algures entre aquilo que ainda não conheço e aquilo que ainda nem sequer pensei procurar, esteja o próximo horizonte.



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