Termina assim uma ilusão

Domingo, 9 de Abril de 1978

Hoje decidi romper tudo com a Lina.

Talvez tenha sido por orgulho. Soube que ela andava com outro. Já não era a primeira vez que me diziam uma coisa dessas, mas desta vez houve uma confirmação que tornou mais difícil continuar a fingir que não era verdade.

E talvez seja isso que finalmente me fez decidir.

Sinto-me aliviado e triste ao mesmo tempo.

Aliviado porque deixo de estar preso à dúvida, às suspeitas e àquilo que constantemente me fazia perguntar o que estava realmente a acontecer. Triste porque, apesar de tudo, eu quis acreditar nesta história. Quis levá-la adiante, mesmo quando já havia sinais suficientes para perceber que talvez estivesse apenas a iludir-me.

E termina assim uma ilusão que eu pretendia levar avante.

Talvez seja essa a palavra certa. Ilusão.

Não significa que tudo tenha sido falso. Significa apenas que eu fui construindo uma possibilidade na minha cabeça e continuei a acreditar nela mesmo quando a realidade começava a dizer-me outra coisa.

É sempre bom uma pessoa passar por tudo.

Sei que o fogo queima porque já me queimei. Por isso, talvez da próxima vez esteja mais prevenido. Não para deixar de viver ou de acreditar, mas para reconhecer mais depressa aquilo que me pode fazer mal.

Haverá outras ilusões.

Outras miragens.

Voltarei provavelmente a ser atraído por coisas que parecem estar ao alcance da mão e desaparecem quando tento tocá-las. Talvez encontre outras sereias pelo caminho, outras vozes capazes de me chamar para lugares onde penso encontrar aquilo que procuro.

Mas continuarei.

Até encontrar a minha dama.

Hoje termina uma ilusão.

Não sei ainda o que começa amanhã.



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