Epílogo - Maio de 1978 - Volume V

Maio foi um mês de palavras.

Não porque tenham acontecido grandes coisas, nem porque a vida de António tenha avançado por acontecimentos capazes de mudar o rumo dos seus dias. Pelo contrário. Grande parte deste mês parece ter acontecido dentro dele. E foi a escrita que deixou esse movimento à vista.

Os poemas sucederam-se quase dia após dia. Uns nasceram da tristeza, outros da revolta, outros ainda de uma esperança que parecia reaparecer apenas para voltar a ser posta em causa. António escreveu sobre a morte, a liberdade, a felicidade, a sociedade, o ódio, a solidão e a vontade de viver. Mas, por baixo de todos esses temas, havia quase sempre a mesma inquietação: a necessidade de encontrar um lugar onde pudesse ser ele próprio.

Há momentos em que parece ter encontrado esse lugar. «Sou livre», escreve. Poucos dias depois, pede para sonhar porque já não consegue viver. Depois volta a falar de liberdade, de felicidade, de luta, de uma possível libertação. E, quando o mês termina, já não está a gritar. Está no alto de uma montanha, sozinho, à espera do momento final.

Não há aqui uma evolução linear. Há avanços e recuos. Há contradições que António ainda não sabe resolver e que, talvez por isso mesmo, são tão importantes. A liberdade pode ser uma conquista e, ao mesmo tempo, uma solidão. A felicidade pode parecer próxima e, logo depois, transformar-se numa coisa perdida. A revolta pode dar força, mas também pode deixar alguém cansado.

É isso que torna estes poemas mais do que simples exercícios de escrita. São uma espécie de território onde António experimenta diferentes maneiras de olhar para aquilo que o rodeia e, sobretudo, para aquilo que sente. Ainda não possui as palavras certas para tudo. Por vezes exagera, dramatiza, revolta-se. Outras vezes encontra imagens inesperadamente belas. Mas, em todas elas, existe uma procura.

Maio mostra-nos um António mais voltado para dentro. A escrita deixou de ser apenas o registo dos dias e começa a ocupar outro espaço na sua vida. É ali que ele consegue dizer coisas que, fora da página, talvez ainda não consiga dizer.

E talvez seja esse o verdadeiro acontecimento deste mês.

Enquanto a vida parece parada, António não está parado.

Está a escrever.

E, sem ainda o saber, está também a construir, palavra a palavra, uma forma nova de se conhecer.



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