Frustrações de um amor incompreendido

 

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Quinta-feira, 24 de Novembro de 1977

Nós, os jovens, principalmente os que namoram e têm problemas, somos uns revoltados, uns sentimentais e deveras ciumentos. Talvez seja porque, quando alguma coisa nos impede de estar com quem queremos, tudo parece maior do que realmente é. Um encontro que não acontece pode pesar mais do que deveria e uma ausência pode ocupar o lugar inteiro de um dia, como uma sombra longa que se estende sobre a calçada vazia.

Quando o amor é verdadeiro, todos os momentos de encontro são um prazer divinal, mais ainda quando esses momentos são procurados pelos dois. Há qualquer coisa de diferente, uma espécie de luz mútua, quando sabemos que não somos apenas nós a querer estar com a outra pessoa. Procuramos o encontro porque precisamos dele e porque sabemos que do outro lado existe a mesma sede e a mesma vontade.

E talvez seja precisamente isso que torna tudo mais difícil quando surgem obstáculos.

Não sei o que tenho comigo ou talvez saiba. Eu não perco uma oportunidade de estar com a Lina quando assim é desejo dos dois. Se existe uma possibilidade de a ver, procuro aproveitá-la. Não porque tenha sempre alguma coisa especial para lhe dizer, nem porque seja necessário que aconteça alguma coisa extraordinária. Às vezes basta estar com ela, respirar o mesmo ar e sentir o tempo abrandar. Basta aquele instante frágil em que deixamos de estar separados e em que, por algum tempo, aquilo que nos preocupa fica para trás, dissolvido no silêncio de estarmos juntos.

Depois dos últimos dias, porém, esses momentos tornaram-se mais difíceis. Os encontros ao meio-dia terminaram por causa das objecções dos pais e até esperar por ela passou a exigir cuidado, como quem pisa em terreno minado. E, apesar disso, continuo a procurar as ocasiões que ainda nos são possíveis, recolhendo os cacos do tempo que nos deixam partilhar.

Talvez seja essa a minha revolta.

Não contra a Lina, nem contra aquilo que existe entre nós, mas contra tudo o que parece querer colocar distância onde nós procuramos proximidade. Se os dois desejamos um encontro, custa aceitar que nem sempre esse desejo possa transformar-se simplesmente num encontro, como a água que encontra o seu curso natural.

E assim continuo, entre a vontade de estar com ela e as limitações que me são impostas, a pisar a linha ténue entre a esperança e a paciência.

Talvez seja isto que significa ser jovem e namorar quando as coisas não são fáceis. Querer muito, sentir ainda mais e não saber sempre o que fazer com aquilo que transborda no peito.

Eu, pelo menos, sei uma coisa, enquanto houver uma oportunidade de estar com a Lina e essa oportunidade for desejada pelos dois, não a vou desperdiçar.



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