O lado negro da vida

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Quarta-feira, 23 de Novembro de 1977

Hoje dei por mim a pensar no lado negro da vida.

De que serve nascer e viver um curto espaço de tempo? A pergunta parece simples, mas quanto mais penso nela, mais difícil se torna encontrar uma resposta. Nascemos, crescemos, atravessamos os dias entre doenças, desgostos, alegrias que muitas vezes nem sabemos se merecem esse nome e sentimentos que nem sempre encontram quem os compreenda ou corresponda.

E depois, um dia, tudo acaba.

Imagino esse dia como um dia de chuva, talvez com trovoada, frio e charcos por todos os lados. Pessoas molhadas, aborrecidas, seguindo um cortejo sem vontade de estar ali. Depois os sinos, o coveiro, uma lamúria, um choro, um sermão.

E uma urna.

Lá no fundo de um buraco negro, fundo e enlameado, desaparece aquilo que, pouco tempo antes, era uma pessoa. Alguém que nasceu, viveu, teve alegrias, desgostos, desejos, talvez filhos, talvez pessoas que amou e que o amaram, e que agora fica reduzido àquele buraco e à terra que lhe cai por cima.

Pazadas.

É uma palavra que me fica na cabeça. A terra cai, uma pazada depois de outra. Há sempre alguém a chorar, alguém a olhar, alguém que parece não saber o que fazer. Um vai-e-vem de pessoas vestidas de preto, como se durante alguns momentos toda a vida tivesse perdido as suas cores.

E depois, pouco a pouco, todos vão embora.

Fica o silêncio.

Que vida é esta, afinal? E que morte é esta que nos espera a todos?

Mais pazadas.

E depois mais filhos, mais vidas a começar, mais pessoas a nascer para um dia chegarem ao mesmo lugar.

Mais pazadas...


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