Quando o olhar pesa

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Terça-feira, 22 de Novembro de 1977

Hoje a minha irmã Celeste fez anos. Para assinalar a data, houve prendas e uma pequena festa, mas não assisti. O dia, porém, acabaria por ficar marcado por outra coisa, bem diferente e que, naquele momento, me pareceu muito mais importante.

Como saí mais cedo do liceu, fui esperar a Lina. Depois seguiria directamente para a Academia e, por isso, tinha aproveitado aquele tempo para a encontrar. Só que cheguei mais cedo do que esperava e, em vez dela, apareceu o pai dela.

Está tudo dito.

Não precisei que acontecesse mais nada para perceber que não era ali que devia permanecer. Depois do que já acontecera com os pais dela, aquele encontro inesperado deixou-me imediatamente desconfortável. Meti-me no primeiro trólei, antes que a Lina aparecesse.

Enquanto esperava, sentia o olhar do pai dela sobre mim. Não sei exactamente o que pensava naquele momento, mas sabia que não queria ficar ali diante dele. Havia coisas que eu preferia que continuassem a pertencer apenas a mim e à Lina, longe dos olhares dos outros.

Por isso, enquanto aquele olhar permanecia sobre mim, a única coisa que eu esperava era que a Lina não aparecesse.

Felizmente, assim foi.

Talvez pareça estranho dizer que fiquei contente por ela não ter aparecido. Afinal, eu tinha ido precisamente à sua procura. Mas naquele instante era diferente. Se ela aparecesse, a situação poderia tornar-se ainda mais difícil. Assim, parti sozinho, levando comigo aquela sensação desagradável de que, às vezes, até o simples desejo de estar com alguém pode tornar-se complicado.

Ontem tinha ficado claro que os nossos encontros ao meio-dia já não podiam continuar como antes. Hoje percebi que nem sequer esperar por ela estava livre de obstáculos.

E comecei a compreender que, dali para a frente, talvez tivesse de ter mais cuidado com cada encontro.


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