Quando os encontros mudam

Segunda-feira, 21 de Novembro de 1977

Quando os encontros mudam

Hoje ouvi falar de Zandinga, o astrólogo que “adivinhou” o desastre da TAP. Dizem que tinha previsto, no princípio do ano, que aconteceria o maior desastre da TAP e, agora que aconteceu, há quem veja nessa previsão qualquer coisa de extraordinário. Eu, porém, não acredito nas suas artes de “adivinhar”. É fácil olhar para uma previsão depois de um acontecimento e encontrar nela aquilo que parece confirmar o que aconteceu.

O desastre ocorreu no sábado, dia 19, e provocou 129 mortos, além de não se saber ainda quantos feridos. Mundialmente foi considerado um “desastre médio” e os jornais lembravam outros casos em que o número de mortos chegou a ultrapassar os quinhentos. É estranho como os números podem tornar uma tragédia maior ou menor aos olhos de quem está longe dela. Para quem perde alguém, pouco importa que o jornal lhe chame médio ou grande.

Mas houve outra coisa que hoje me ficou mais perto de mim do que qualquer notícia de jornal.

Os meus encontros ao meio-dia com a Lina terminaram. Os pais dela fizeram objecções e, por causa disso, aquilo que já fazia parte dos nossos dias deixou de poder acontecer como antes. Não é que tenha deixado de a ver. Sempre que posso, continuo a ir esperá-la ao trabalho, às seis e dez. Mas já não é a mesma coisa.

Havia qualquer coisa de bom nesses encontros do meio-dia. Eram momentos nossos, pequenos, talvez até insignificantes para quem os visse de fora, mas que para mim tinham importância. Bastava sabermos que nos íamos encontrar. Agora há uma barreira que não fomos nós que levantámos e que temos de aceitar, mesmo sem gostarmos dela.

Ainda assim, não quero desistir de a ver. Se não posso encontrá-la ao meio-dia, encontro-a quando puder. Há qualquer coisa dentro de mim que não aceita facilmente que os outros decidam até onde podem ir os meus sentimentos.

Por isso, continuarei a esperá-la às seis e dez, no seu trabalho, sempre que me for possível.

Talvez seja pouco. Mas, neste momento, é o que temos.


← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →


Comentários