Ego “pavorosamente” deslocado

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Domingo, 20 de Novembro de 1977

Hoje surgiu um novo problema.

A Lina teve uma discussão em casa com a mãe e, através disso, fiquei finalmente a saber aquilo que já há algum tempo desconfiava, os sentimentos que a mãe dela tem por mim.

É extraordinário.

Nunca pensei vir a ser odiado por uma pessoa a quem nada fiz, que nunca provoquei nem procurei magoar. E, no entanto, talvez o mais estranho de tudo seja eu não ter ficado verdadeiramente surpreendido. No fundo, havia qualquer coisa que me dizia que as coisas não eram tão simples como pareciam. Hoje apenas tive a confirmação das minhas desconfianças.

E, por estranho que possa parecer, até fiquei contente.

Não contente por ser odiado, mas por ter descoberto que aquilo que suspeitava não era imaginação minha. Há uma certa satisfação em ver uma suspeita transformar-se numa certeza, mesmo quando essa certeza não é agradável.

Mas, depois, o meu pensamento tomou outro caminho.

Se me odeiam, então porquê?

Na minha maneira de ver as coisas, só encontro uma explicação. Invejam-me e, ao mesmo tempo, adoram-me. Consideram-me diferente, talvez porque eu próprio me considero superior. As minhas ideias parecem-me brilhantes e aquilo que sou não é, para mim, uma coisa de que deva envergonhar-me.

Talvez seja orgulho.

Talvez seja mesmo muito orgulho.

Mas hoje, perante aquilo que descobri, esse orgulho cresceu ainda mais. Se alguém me olha como um inimigo sem que eu lhe tenha feito mal, então prefiro pensar que a razão está naquilo que me distingue dos outros. É mais fácil aceitar o ódio quando se acredita que ele nasce da inveja do que quando se admite que talvez exista outra explicação.

Eles são uns vermes, penso eu.

E eu sou superior.

Escrevo isto e reconheço a dureza das palavras, mas é assim que hoje me sinto. Talvez amanhã pense de outra maneira. Hoje, porém, não tenho vontade de me diminuir para agradar a quem já decidiu não gostar de mim.

Tenho ainda aquilo que realmente importa.

Tenho o amor de quem me ama e o ódio de quem me odeia.

E se é isso que me resta, então é com isso que seguirei em frente.

Não vou responder com medo nem com tristeza.

Responderei com um sorriso nos lábios.


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