A esperança a afastar-se

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Quarta-feira, 19 de Outubro de 1977

A história de ontem terá o seu desfecho muito breve, num compasso de espera que já pesa demasiado no peito. 

O planeta já começou a perder as esperanças, cansado de gravitar no vazio, já pouco faz para aproximar o satélite que teima em escapar à sua órbita. 

Depois de tanta procura, de tanta inquietação e de noites inteiras entregues a pensamentos circulares, começo a sentir que as forças também se gastam, consumidas pelo próprio atrito da distância. Talvez seja esse o verdadeiro princípio da desistência, não o deixar de querer, mas o esvaziar da vontade, o momento em que já não sei por onde pegar nem como aproximar aquilo que parece afastar-se a cada segundo.

Não acredito em milagres e muito menos em Deus, pelo que me refugio apenas na frieza crua do acaso. Só um golpe de sorte inopinado aproximará este satélite tão desaproximado, e mesmo isso será obra cega, pois a própria natureza o decidirá sem piedade nem aviso prévio.

Hoje, o peso do dia estendeu-se aos afectos mais próximos. Esperava dizer tanto à Lina e, no entanto, nada disse. Levei comigo tudo aquilo que queria falar-lhe guardado na ponta da língua, mas as palavras simplesmente emperraram, presas num silêncio obstinado. Há momentos em que o abismo do que sinto é tão vasto que acabo por não encontrar maneira de começar, como se o primeiro som fosse deitar a perder a imensidão do que pretendia explicar.

E, para piorar o desconcerto, magoei a minha mãe porque estava maldisposto, descarregando sobre quem me é porto seguro o veneno de um dia em que já não me suporto a mim próprio. Fica o amargo de saber que feri quem não tem culpa da minha tempestade interior, num fecho de jornada onde tudo parece desalinhar-se.


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