Entre querer e duvidar

← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →

Quinta-feira, 20 de Outubro de 1977

A Lina já começa a falar sem rodeios. Eu, no entanto, continuo a sentir o mesmo de sempre, sinto-me desprezado e gozado, tenho a nítida sensação que assim é. O que não percebo é que ela pareça mostrar que me quer. Será um sentimento falso ou verdadeiro? O que eu não daria por saber.

É esta dúvida que me acompanha e que não consigo afastar. Por mais que ela diga ou faça, há sempre qualquer coisa dentro de mim que continua a desconfiar. Talvez por isso não consiga receber inteiramente aquilo que ela me dá, uma parte de mim acredita, outra procura qualquer sinal que confirme os meus receios.

Ontem estava muito aborrecido e tive uma pequena discussão com a minha mãe e disse-lhe umas palavras que a devem ter ferido. Quando reflecti melhor, a minha má disposição aumentou devido à minha estúpida intervenção. Seria melhor calar-me.

Depois de pensar no que aconteceu, percebi que a minha própria inquietação acabara por atingir quem nada tinha a ver com aquilo que me atormentava. Fiquei pior comigo mesmo. Há palavras que saem num instante e ficam muito mais tempo dentro de quem as ouve.

Hoje, porém, continuo sem resposta para a pergunta que mais me importa, se a Lina parece querer-me, porque continuo a sentir-me tão inseguro?


← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →


Comentários