Ameaças e ironias

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Sexta-feira, 21 de Outubro de 1977

O senhor Olindo – o nosso irrepreensível chefe, patrão e dirigente do grupo coral –, que tanto apregoa as virtudes da convivência, da paz e da igualdade, decide subitamente esquecer toda a sua proverbial boa vontade e solidariedade para com o próximo. Converte-se, num ápice, num autêntico poço de disparates, vociferando ameaças a torto e a direito e jurando descarregar toda a sua fúria sobre o primeiro infeliz que caia nas suas supostamente benévolas garras.

Como seria de esperar, calha a fava a quem ele manifestamente não «grama». Jurou a pés juntos que eu seria a primeira vítima da sua lista, a menos que haja por aí alguém ainda mais azarado do que eu. Quanto à promessa de me dar dois «safanões» e me chamar «garoto», é evidente que não tive o privilégio de a ouvir directamente da sua boca, chegou-me através de fontes devidamente informadas, daquelas que nunca se comprometem mas sabem sempre tudo. Afinal, a tal solidariedade que ele tanto defende parece servir apenas para os acólitos da sua ideologia e para os fantoches que lhe servem de «tapados», tal como a unidade e a igualdade que servem de fachada. Enfim, é o que temos.

Entre estas pequenas tempestades do quotidiano, que agitam a superfície turva dos dias, ainda estive com a Lina. Mas o tempo pareceu deter-se, arrastando-se numa monotonia cinzenta e sem rumo, onde nem a presença de alguém amigo conseguiu afastar a névoa pesada que teimava em pousar sobre a tarde.



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