Não deixes que o teu ódio te deslumbre

 

Domingo, 28 de Maio de 1978

Hoje voltei a escrever sobre aquilo que me incomoda na sociedade e sobre a forma como o ódio pode destruir aquilo que ainda vale a pena preservar.

Comecei por pedir ao Sol que me desse força. Depois, as palavras foram ficando mais duras, como se estivesse a enfrentar alguém que não consigo aceitar que destrua o meu mundo.

Ó sol que dás luz ao dia e ilumina a minha alma,
Liberta-me do meu corpo de pedra
Faz eco dos meus passos
Dá-me a força de Marte
Para que sobreviva áquilo que chamam sociedade
Estou farto de ser estátua sobre um pedestal
Não posso consentir que sob o meu olhar
Destruam o que é meu e de todos
Ó cruel destino
Como ousas interromper os meus pensamentos
Espalhando o ódio pelo horizonte
Que meus olhos abrangem?
Para! Ordeno-te
Não provoques a minha fúria destruidora
Não deixes que o teu ódio te deslumbre,
Não está em jogo um brinquedo que usas e deitas fora
Não vês que o ódio cego te confunde
Vê o meu mundo sossegado e quedo
Não deixes que o teu ódio te deslumbre

Há aqui uma coisa que me chama a atenção: peço força para sobreviver, mas quase de imediato essa força transforma-se em fúria. Talvez ainda não saiba muito bem onde acaba a defesa e começa a revolta. Sei apenas que não quero ficar a olhar, como uma estátua, enquanto aquilo que considero meu e de todos é destruído.



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