Não tenho forma de a esquecer

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 1978

Hoje estive com o Narciso. Por causa dele faltei à primeira aula.

Estive também com o Sousa e Silva. É uma pessoa extraordinária, dessas que se interessam por coisas que ninguém entende. Falamos de OVNIs quase o tempo todo. Ele tem um grupo, tem livros, tem teorias. Eu ouvi. Fiquei a perceber que há muito mais gente do que eu pensava a olhar para o céu à espera de ver uma coisa que ninguém sabe se existe.

Isto ocupa-me. É bom ter uma coisa que me ocupe, mesmo que seja uma coisa em que não acredito inteiramente.

Mas depois há as outras horas, e nas outras horas não tenho onde me esconder.

Apetece-me falar de coisas mais agradáveis. Mas não consigo. Não tenho meios de a esquecer. Pesa-me na consciência a derrota que sofri, o amor que perdi, o carinho que tinha dela, a companhia, e mais, muito mais. Não sei o que é mais. Sei que é mais.

Não é com pesar que penso vir um dia a vê-la com outro. É com outra coisa, que não sei nomear. Rendo-me ao que me é superior e inferior. O ódio da mãe dela não é coisa que eu vá aplacar. Aquele ódio é maior do que a ira dos deuses, de tão fácil de ganhar e tão difícil de perder. Mas um dia, quem vai julgar não é ela. É a humanidade, com a mentalidade que tiver. E isso não está nas minhas mãos.

Hoje escutei o Sousa e Silva e percebi uma coisa. Falamos dos OVNIs, dos objectos não identificados, das coisas que aparecem e desaparecem sem explicação. Passei a tarde nisto. E só agora, ao escrever, percebo que ando à procura de uma explicação para outra coisa. Não sei se ele percebeu. Acho que não.


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