Não é verdade
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 1978
Ficámos presos pelo olhar durante segundos. Não sei quantos. Foi o suficiente para eu ficar surpreso e agitado, sem o deixar transparecer.
O Manel estava ao meu lado. Notou. Não disse nada na altura, mas mais tarde, já a caminho, perguntou-me porque é que eu não tinha saído. Não respondi logo. Ele percebeu que tinha perguntado o que não devia e mudou de assunto. Não voltámos a falar nisso.
Fico a pensar se ele sabe. Se toda a gente sabe, menos eu. Se a Lina contou a alguém, se a mãe dela contou às colegas, se as colegas contaram aos que estão ao lado. Às vezes parece-me que ele não sabe, e isso agrada-me, quer dizer que ela guardou aquilo entre nós. Outras vezes parece-me impossível que ele não saiba, porque as coisas sabem-se, e as mães não guardam segredos.
Não sei. E também não quero saber.
O que sei é que não vou dizer a ninguém que estou separado da Lina. Não é que esteja à espera de que volte. Não é que esteja a mentir. É que não é verdade. Não é verdade para mim. E o que eu digo é o que eu sinto, ou então não digo nada.
Hoje o Manel perguntou-me uma coisa e arrependeu-se. Eu podia ter respondido e não respondi. Ficámos os dois com aquilo. É assim que as coisas ficam, entre amigos, cada um sabe o que o outro não diz, e nenhum dos dois insiste.
Não sei se ele falou comigo hoje por pena, ou por amizade. Provavelmente por amizade. Mas fico a pensar. Fico sempre a pensar.
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