Uma página por dia
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 1978
Quando comecei este diário, prometi a mim mesmo que cada dia ocuparia uma página. Não sei porquê. Pareceu-me bem na altura, e agora não me posso queixar, fui eu que o decidi.O problema não é escrever. É arranjar tema.
Há dias em que me sinto inspirado, em que as coisas aparecem e eu só tenho de as passar para o papel. E há dias em que estou em branco, e esses são a maioria. Para esses, arranjo palha. Gravetos. Coisas que não alimentam ninguém, que nem o porco admitiria. Encho a página com o que tenho, e o que tenho é pouco.
Mas é curioso. Quando menos se espera, aparece um tema. E então é como se a mão e a esferográfica fossem uma coisa só, e deslizam sobre as linhas em branco, e o resto desaparece.
Hoje foi um dia desses. Não tinha nada para escrever, sentei-me, e saiu isto.
Não sei se estou a escrever sobre o diário, ou se estou a escrever sobre outra coisa. Talvez esteja a escrever sobre o que não consigo escrever.
Fico por aqui.
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