Banco de jardim

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 1978

Bom, e lá vai mais um dia tempestuoso, como nunca visto nesta época do ano. Muito vento, mas mais chuva.

Passei parte da tarde a ver a chuva da janela. Não me apetecia sair, não me apetecia ler, não me apetecia fazer nada. Fiquei ali, encostado ao vidro, a ver a água a correr e as pessoas a passar de guarda-chuva, curvadas contra o vento.

Há um banco de jardim ali ao pé de casa. 
É velho, de ferro, 
com a pintura a saltar 
e a ferrugem a aparecer por baixo. 
Está ali há anos, 
sempre no mesmo sítio, 
à chuva e ao sol. 
Hoje, 
enquanto olhava para ele, 
pus-me a pensar.

O banco está sentado à chuva, 
à espera de um sol que já não vem. 
É noite, e ele é corajoso, 
não vira as costas ao vento, 
não abre guarda-chuva, 
não tem medo da água que o salpica. 
Fica ali, parado, 
a ver passar as pessoas, 
sem compreender 
porque é que elas se movem. 
Para ele, estar parado é o que faz sentido. 
Não pensa, não fala. 
Mas sente o peso da idade 
da dele e da dos outros. 
Já tem ferrugem, 
já ninguém lhe liga. 
Quem lhe dera ter de novo 
a imagem de outrora, 
quando as senhoras 
passeavam de sombrinha 
e se sentavam nele a descansar.

Hoje é já um inútil banco de jardim.

Fico com esta imagem na cabeça e não sei bem porquê. À noite, quando me sentei a escrever, ainda estava com ela. Há coisas que se colam à gente sem pedir licença.


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