A vela apagou-se

Sábado, 25 de Fevereiro de 1978

A Lina mandou-me um recado pelo Manel. Perguntava se eu me tinha esquecido do número de telefone dela.

Não me esqueci. Quando nos separámos, ela pediu-me que lhe telefonasse de vez em quando. Eu não telefonei. Não por esquecimento, porque quis dar-lhe espaço para me esquecer, para falar com outro, para seguir. Não a quis prender.

Mas ela não se esqueceu. E agora manda perguntar. Vou telefonar-lhe. E ao telefone vou tentar apanhar o tempo que passou, embora saiba que não se apanha.

O temporal instalou-se cá para estes lados. Ficámos sem luz e estou a escrever à luz de uma vela.

A vela está em cima da mesa 
e tudo à minha volta são sombras. 
Mil sombras que bailam 
com a aragem 
que passa por baixo da porta 
e faz mexer a chama. 
Formas esquivas, 
compridas, 
que se esticam para o tecto 
e depois encolhem. 
É um quadro macabro, 
mas não me assusta. 
Estou aqui, 
sentado, a ver a vela queimar.

A vela dá calor e dá luz. 
E, ao mesmo tempo, 
encerra em si o fim. 
Toda a luz que dá 
é luz que gasta. 
Quanto mais brilha, 
mais perto está 
de se apagar.

Apagou-se.


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