Continuo a ser um sonhador

Domingo, 26 de Fevereiro de 1978

Hoje a minha irmã quis ir ao cinema e eu disse que ia. Depois desisti. Fiquei em casa à espera que o Manel me viesse chamar, porque pensei que talvez saíssemos, eu e ele, com a Lina e outro colega. Não veio ninguém. Fiquei em casa.

Ao fim da tarde apareceu o Manel. Não foi para sairmos. Foi para me dizer que a Lina recebe telefonemas a partir das seis e meia. Só isso. Disse-me e foi-se embora.

Fiquei com aquilo. Seis e meia. Uma hora, um número, uma informação que não serve para nada, e no entanto fiquei com ela. Há coisas que ficam sem razão.

Passei o resto do dia em casa. À noite, quando me sentei a escrever, saiu-me isto:


Continuo a ser um sonhador.
Os mortos não se importam que chova.
Os cegos não ligam a pornografia.
O maneta não pode ser pugilista e o perneta, atleta.
A vida só tem um caminho,
uma vida e uma morte.
Desiludido é aquele que não se ilude.
Louco é aquele que tem os pés na terra
e a cabeça no ar.
Viver é estar acordado.
Gritar é o dom de ter voz.
Escrever não é um dom de analfabetos.

Escrevi isto de seguida, sem pensar. Agora leio e não sei se é verdade ou se é o contrário. Continuo a ser um sonhador, isso sei. Se é bom ou mau, ainda não percebi.


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