Um metro de distância

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 1978

Comecei o dia a pensar em telefonar à Lina. Andei com isso na cabeça desde que me levantei.

Fui para a paragem. A irmã dela passou por mim e não me ligou importância. Perto do trabalho dela, vimo-nos. Não falamos. Fiquei com aquilo preso e vim embora.

No regresso, ao sair do trólei, o coração caiu-me aos pés. Estava ali. A um metro de mim. Não sei como não dei por ela antes. Estava ali, e eu não sabia onde pôr as mãos.

Saímos juntos. Falei-lhe. Ficámos assim, não sei quanto tempo, a falar. Disse-lhe que não lhe tinha telefonado ainda, e desculpei-me. Não lhe disse porquê. Disse-lhe que ia telefonar hoje, e isso era verdade. Falei-lhe de mim, do que tenho feito, das minhas saídas, muito por alto, sem entrar em detalhes. Depois ouvi-a. Fiquei calado a ouvi-la, como uma criança atenta a um jogo de que gosta muito.

Tive medo, a certa altura, de lhe deixar a impressão de que sou má companhia. Não sei porquê. Talvez porque estive muito tempo calado. Talvez porque não disse o que queria dizer.

Ela falou-me com uma voz que me entrou fundo. Não sei o que disse. Sei como disse.

Despedimo-nos com um beijo. Foi um beijo que me deliciou e me fez reviver. Não sei o que isto quer dizer. Não sei se quer dizer alguma coisa. Mas fiquei com ele, e ainda agora, ao escrever, o sinto.

Vim para casa a pé. Não me apetecia apanhar o trólei.


Comentários