Telefono mais tarde
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 1978
Passei o dia com o telefone à frente. Não é uma maneira de falar. É o que aconteceu.Levantei-me tarde, como quase sempre. Tomei o pequeno-almoço sem pressa, li um pouco, e depois fui para o corredor, onde está o telefone. Fiquei ali parado a olhar para ele. É um telefone preto, de baquelite, com o disco dos números e o auscultador pesado. Já o usei mil vezes para outras coisas. Hoje parecia-me um objecto estranho.
Marquei os primeiros números. Desliguei antes de acabar. Voltei para o quarto, peguei num livro, li duas páginas sem perceber nada. Voltei ao corredor. Desta vez deixei tocar. Do outro lado atendeu a mãe dela. Desliguei. Fiquei com o coração aos saltos, como se tivesse feito uma asneira, e depois ri-me de mim mesmo, sozinho, no corredor.
Depois do almoço saí. Fui até à paragem e vim. Não estava à espera de ninguém. Só me apetecia andar. Fui até ao fim da rua, voltei pelo mesmo caminho. Não vi nada nem ninguém que valesse a pena. À porta de casa, fiquei um bocado sentado no degrau, ao sol, que hoje finalmente apareceu depois do temporal. Estive ali a ver as pessoas a passar. Uma mulher com um saco de compras, dois rapazes de bicicleta, um cão que se aproximou de mim e se foi embora quando percebeu que eu não lhe dava nada.
Pensei na Lina o tempo todo, e não me lembro de um único pensamento que tenha tido. Era ela, e pronto. Não é uma coisa que se explique.
À tarde, ainda tentei outra vez. Marquei o número completo, deixei tocar até ao fim. Não atendeu ninguém. Fiquei com o auscultador na mão a ouvir o sinal, até perceber que não ia atender. Desliguei devagar.
Foi um dia de espera. Não de espera por ela, de espera por mim. Porque eu sabia que não ia telefonar, e ainda assim passei o dia a preparar-me para telefonar.
Quando me sentei a escrever, percebi que Fevereiro acabou. Comecei o mês com uma coisa e acabo com outra. No princípio, ela queria falar comigo e eu não sabia o que ia ouvir. Agora, ela beijou-me e eu não sei o que hei-de dizer-lhe. É o mesmo problema, ao contrário.
Não sei o que isto quer dizer. Sei que amanhã é Março e que o telefone continua ali, no corredor, à espera que eu decida.
Amanhã telefono. Ou não.
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