O eco de uma amizade dispersa

Domingo, 22 de Janeiro de 1978

Hoje estive com a Lina e fiquei satisfeito com os poucos minutos que conseguimos estar juntos. A presença dela teria sido suficiente para me deixar de muito boa disposição, mas essa alegria acabou por ficar abafada por outra coisa que me aconteceu.

Senti que perdi um amigo.

O Manel não morreu, evidentemente, mas para mim foi quase como se tivesse morrido a amizade que tínhamos. Aquilo que existia entre nós pareceu-me quebrado. E talvez por isso a minha reacção tenha sido tão violenta.

Não consigo aceitar facilmente aquilo que interpreto como uma derrota. Vejo o Manel como alguém que se deixou vencer e isso revolta-me. Lamento-o porque, até aqui, tínhamos partilhado ideias, atitudes e até uma certa revolta contra uma sociedade que ambos considerávamos errada e hostil.

Abríamo-nos um ao outro. Havia coisas que só entre nós eram ditas. Havia uma espécie de cumplicidade que eu julgava resistente.

E agora?

Agora sinto-o do outro lado.

E, na minha cabeça, esse outro lado é ainda pior porque o associo à religião, à droga e à prostituição. Tudo aquilo que, neste momento, rejeito com força. A amizade que ontem me parecia tão próxima hoje parece-me uma coisa perdida.

A minha reacção é dura. Chego mesmo a escrever que o odeio.

Talvez seja o ódio de quem ainda não conseguiu aceitar a perda. Talvez seja mais fácil odiar alguém do que admitir que se sente a falta daquilo que existia antes.

Hoje estive com a Lina, mas nem a sua presença conseguiu apagar completamente esta sensação.

Perdi um amigo.

E, por muito que tente transformar essa perda em raiva, continuo a saber que alguma coisa importante ficou para trás.


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