Amanhã é mais um dia

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 1978

Hoje estive com a Lina e senti-me deveras muito bem com ela. Estivemos juntos perto de uma hora, tempo mais que suficiente para percebermos que somos incansáveis um para o outro.

Depois dos últimos dias, este encontro fez-me particularmente bem. Há qualquer coisa na presença dela que consegue afastar, ainda que por algum tempo, as inquietações que me acompanham. Quando estou com ela, parece que tudo encontra o seu lugar.

Hoje também fecho o meu quarto diário. Não quero fazê-lo sem deixar uma última frase para a Lina. Na verdade, não é apenas uma frase. São alguns versos que lhe escrevo com o coração:

Lina, meu pensamento
Instável como a ventania
Não é mais que ilusão
Amanhã é mais um dia

Amanhã, disse-te eu
Mais terei eu pra dizer
Ontem sim, hoje também
—
Tenho vida para morrer
E agora não sou ninguém

Termino assim este diário.

Ficam as palavras, ficam os pensamentos e ficam também todas as coisas que não consegui dizer. Talvez amanhã tenha realmente mais para dizer. Talvez o dia seguinte traga aquilo que hoje ainda não consigo ver.

Mas isso já pertence a outro diário.


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