Ó leda eterna madrugada

 

Quinta-feira, 25 de Maio de 1978

Hoje voltei ao pesadelo de ontem, mas desta vez procurei uma saída. Ainda ficou a sensação de estar ferido, de trazer qualquer coisa quebrada dentro de mim, mas comecei a olhar para o Sol e para aquilo que pode nascer depois de uma noite difícil.

Foi assim que escrevi:

Volto só, do meu pesadelo
A minha alma é um vaso quebrado
Por onde escorre o sangue que ainda me resta
Não posso desejar voltar a tê-lo
Foi atroz estar gelado
Não quero ter outro pesadelo.
Ó Sol, que me iluminas!
Que dás calor à minha imagem
Sonhei que agonizavas, que morrias
E eu te rendia homenagem.
Ó noite cheia de fantasias!
Que em teu seio encobres ladrões
Sonhei que lutavas e vencias
E que teu prémio eram corações.
Ó leda eterna madrugada!
Mensageira de um novo dia
És o fim da noite abafada
De vampiros impregnada
Trazes de novo a alegria.

O vaso pode ter rachado no horror da noite, mas a madrugada insiste em devolver-lhe a luz. Há feridas que sangram na penumbra dos nossos piores medos, contudo, até a alma mais fragilizada reencontra o seu rumo assim que o Sol e a alvorada expulsam os fantasmas que nos quiseram roubar a vida.

Resta o sobressalto do sonho atroz, mas sobrepõe-se a certeza mais profunda: por mais abafada e densa que seja a noite, o dia volta sempre para nos resgatar. 



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