O morto-vivo-morto

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 1978

Hoje foi um dia aborrecido.

Ainda mais porque fui esperar pela Lina e só então soube que ela não foi trabalhar. Fiquei ali com a expectativa de a encontrar e, afinal, não houve encontro. A espera perdeu o sentido e o dia pareceu tornar-se ainda mais comprido.

Demorei hora e meia a chegar a casa.

Só depois fiquei a saber a razão da sua ausência, morrera um tio da Lina.

A notícia mudou a maneira como olhava para aquilo que aconteceu. O meu aborrecimento, que me parecera tão importante, ficara agora reduzido à sua verdadeira dimensão. Eu estava apenas à espera de alguém que não apareceu e ela estava a viver uma perda.

Mesmo assim, registo a minha maneira estranha de olhar para aquela morte. Digo que a vida daquele homem me parecia engraçada e que lhe chamaria o «morto-vivo-morto». É uma expressão que talvez diga mais sobre a minha forma de reagir às coisas do que sobre o próprio morto.

Hoje não estive com a Lina e nada vai mudar isso.



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