O pensamento, eis o inimigo

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 1977

Este dia passou mais depressa porque durante toda a tarde estive em frente da televisão. Nem me vesti.

Fiquei assim, parado, deixando que as horas avançassem sem que eu tivesse de fazer grande coisa para as empurrar. A televisão ocupou o espaço, encheu a tarde com imagens, vozes e acontecimentos que não eram  meus. Talvez seja precisamente por isso que o tempo passou mais depressa. Enquanto olhava para o ecrã, não precisava de olhar para dentro de mim.

Mas o pensamento esteve sempre presente.

Pude distrair-me, ficar horas diante da televisão, sem sequer me vestir, como se o dia não merecesse sequer o esforço de começar verdadeiramente. Ainda assim, a cabeça não ficou quieta. Há sempre qualquer coisa que regressa, qualquer ideia que se instala, qualquer preocupação que encontra uma maneira de voltar.

E talvez seja por isso que digo que o pensamento é o inimigo.

Não porque pensar seja mau. Pelo contrário. Eu gosto de pensar, talvez até demais. Mas há momentos em que gostava de conseguir desligar tudo, tal como se desliga um aparelho. Só que a televisão posso desligá-la. O pensamento não.

Assim, enquanto a tarde passa depressa, dentro de mim o tempo continua a andar por outros caminhos.



Comentários