Entre o pensamento e a promessa

Sexta-feira a Domingo, de 23 a 25 de Dezembro de 1977

Que diriam de mim se eu morresse agora?

Talvez dissessem, "Coitado, era tão jovem", ou talvez: "Tão bonzinho que era". Outros poderiam pensar: "Assim acontece a todos os que procedem como ele". Alguém diria: "Nunca tive nada contra ele, mas a família…" E ainda haveria quem dissesse: "Vês? Deus quis que não casasse… foi o destino".

Naquela noite, pensei nas diferentes reacções, nas palavras que ficariam depois de mim, nas pessoas que talvez chorassem e noutras que poderiam até rejubilar. Para uns seria esquecido, para outros, não. A morte parecia capaz de mudar a maneira como cada pessoa olhava para quem parte. E eu, estando ainda ali, imaginei aquilo que diriam de mim se já não estivesse.

O pensamento voltou a ocupar tudo.

Talvez fosse por isso que entrava num estado depressivo. Não era apenas uma ideia isolada, mas uma sucessão delas, umas atrás das outras, como se a minha cabeça não soubesse parar. Pensei na minha vida, no que os outros diriam dela, no que poderia ficar de mim. E, quanto mais pensava, mais difícil se tornava afastar esses pensamentos.

No dia seguinte, houve outra sensação, diferente mas ligada à anterior. Esse dia fizera-me lembrar qualquer coisa, embora eu não conseguisse perceber exactamente o quê. Talvez no dia seguinte…

Fiquei com essa impressão suspensa dentro de mim, como se alguma coisa estivesse para acontecer ou como se uma lembrança estivesse quase ao alcance, mas ainda escondida. Não consegui dar-lhe um nome.

E havia também a relação em que me encontrava.

Estava mesmo preso na relação. Irremediavelmente?

A pergunta ficou ali, sem resposta. Não sabia se estava preso por aquilo que sentia, pelo que desejava ou pelas circunstâncias que me rodeavam. Talvez fosse tudo isso ao mesmo tempo. Sabia apenas que não conseguia olhar para a relação como uma coisa simples. Havia qualquer coisa que me prendia e, ao mesmo tempo, era precisamente aquilo que me fazia querer continuar.

Depois chegou o dia de Natal e, com ele, uma mudança dentro de mim.

Naquele dia estive com a Lina e fora formidável.

A presença dela mudava tudo. Aquilo que nos outros dias parecia pesado tornava-se, por algum tempo, suportável. Um dos meus três desejos fora atendido. Não precisava de explicar muito mais do que isso. Bastava saber que estava com ela e que aquilo que desejava começava, pelo menos por momentos, a acontecer.

Pensei então no que viria depois.

Findos aqueles três desejos, faria o que a Lina quisesse. Era a minha promessa.

Houve qualquer coisa naquele dia que também me fez lembrar aquilo que sentira no dia anterior. A mesma impressão vaga, aquela sensação de que alguma coisa estava ligada àqueles dias, embora eu ainda não soubesse exactamente o quê.

O quê?...

Talvez ainda não fosse tempo de saber.

Por agora, bastava-me ter estado com ela. Depois de dias dominados pelo pensamento, pela dúvida e por essa sensação de estar preso, encontrei finalmente um momento que me devolveu alguma tranquilidade.

Talvez fosse essa a diferença entre pensar na vida e vivê-la, enquanto pensava, tudo se tornava complicado, quando estava com a Lina, por alguns momentos, tudo parecia encontrar o seu lugar.

E talvez fosse precisamente por isso que fazia a promessa.

Porque, apesar de todas as dúvidas, ainda havia alguma coisa que me fazia querer continuar.



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