Os ciúmes persistem

Segunda-feira, 20 de Março de 1978

Hoje deu-me para visitar embaixadas.

Fui com o Manel. Começámos pela da República Federal Alemã, depois a dos Estados Unidos. Foram muito acolhedores, deram-nos revistas, livros, folhetos, coisas que se acumulam nas prateleiras e que eles têm para dar. Fomos ainda ao FAOJ, onde trouxe mais livros e uma revista. Foi uma manhã proveitosa. Gostei. É bom ter coisas nas mãos, folheá-las, saber que são minhas.

Mas, como sempre, não posso deixar de falar na Lina. Tanto mais que, para ir para o Porto, passei pelo trabalho dela. E, no regresso, passei outra vez. Duas vezes no mesmo dia. Não foi por acaso, foi por isso mesmo. Escolhi o caminho que passava por lá.

Quando voltava para casa, tinha esperança de a ver. E tinha receio de a ver acompanhada por outro rapaz. As duas coisas ao mesmo tempo, dentro do mesmo peito. Não sei como isto é possível, mas é.

Faço mal em ter ciúmes. Ela é livre desde que... não interessa. Não vou escrever o resto. Ela é livre, e eu sei disso. Ela diz-me que não tenho razões para me preocupar. E é talvez isso mesmo que me faz ter ciúmes. Se ela me dissesse que tinha razões, eu ficaria em paz. Como me diz que não tenho, fico inquieto. É uma coisa sem lógica, e no entanto é a minha.

Hoje não a vi. Passei duas vezes pelo trabalho dela e não a vi. Talvez tenha sido melhor assim. Amanhã volto a passar. Não sei se quero vê-la, não sei se quero não a ver. Ando no mar, como dizia Platão.



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