Os três tipos de homens
Domingo, 19 de Março de 1978
Voltei a correr de manhã. Escolhi um percurso mais fatigante do que o costume, uns três quilómetros e meio a subir. Não concluí a subida. A meio, o corpo deu de si, lesionei-me numa perna, e tive de parar. A descida tornou-se-me difícil pela mesma razão. Vim a coxear, com o sol já alto, e cheguei a casa derreado.Podia fazer disto um tema. Podia pôr-me aqui a escrever sobre a corrida, o esforço, o corpo, a paisagem, a lesão, encher a página com coisas que não interessam a ninguém. Mas a preocupação é a Lina.
Não a entendo. É a única coisa que sei dizer. Não a entendo, e não sei o que fazer com isso. Terei de estar com ela, é a única solução. Falar com ela, vê-la, estar perto, perceber o que se passa. Tudo o resto é contornar o problema. E eu ando a contorná-lo há demasiado tempo.
Creio que tudo isto são ciúmes. É a conclusão a que chego. Não critico quem os tem, porque um homem sem ciúmes terá de ter uma grande confiança na mulher, ou então não lhe ter amor. E eu tenho amor. Tenho amor e tenho ciúmes, e as duas coisas juntas não me deixam estar sossegado.
Platão dizia: "Só há três tipos de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar." Dizia bem. Os mortos na terra, os vivos no mar. Eu não sei em que categoria estou. Não me sinto morto, mas também não me sinto vivo. Ando no mar, entre uma coisa e outra, sem chegar a lado nenhum.
Hoje não a vi. Hoje corri e não cheguei ao fim. Amanhã, se a perna deixar, volto a correr. Se ela aparecer, falo com ela. Se não aparecer, fico à espera.
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