A indefinição continua

Sábado, 18 de Março de 1978

A Lina mandou dizer ao Manel para eu lhe telefonar.

Telefonei. Fui para o corredor, levantei o auscultador e marquei o número. Estava à espera de ouvir uma coisa agradável, uma daquelas frases que ela às vezes diz e que me deixam bem. Não ouvi.

Não foi desagradável. Também não foi agradável. Foi uma coisa pelo meio, uma conversa sem nada dentro. Eu esperava mais dela. Esperei durante todo o telefonema, e o mais que tive foi a voz dela a dizer coisas que não me lembro. Quando dei por mim, ela estava com pressa, tinha de sair da mesa, e eu acedi logo, disse que não fazia mal, e desliguei.

Fiquei com o auscultador na mão, a ouvir o sinal. É assim que persiste o nosso romance. Ela manda-me telefonar e depois não tem tempo. Eu telefono e depois não tenho nada para dizer. E ficamos os dois assim, pendurados, sem saber o que fazer com isto.

Ao menos já sei que ela não tem nenhum amante. Isso consta-me agora. Não sei se é verdade, mas é o que me chegou. O que ela tem é vontade e falta de vontade, ao mesmo tempo, de continuarmos a ser o que pretendíamos ser. Apaixonados.

A palavra fica-me na boca e não sai. Apaixonados. É o que éramos, ou o que pensávamos que éramos. Agora não sei o que somos. Não sei se somos alguma coisa. Sei que ela me mandou telefonar, e que eu telefonei, e que no fim ficámos os dois com a mesma coisa por dizer. É sempre assim.

Hoje não a vi. Hoje falei com ela, e foi como se não tivesse falado. Amanhã talvez a veja, e será como se não a tivesse visto. A indefinição continua, e eu continuo com ela.


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