Por fora, tudo bem
Sexta-feira, 9 de Dezembro de 1977
Ontem, depois do que aconteceu, nada mais se passou. O meu pai chegou a casa antes da meia-noite, e isso é uma das poucas coisas que consigo registar depois de tudo o que aconteceu.
Hoje foi um dia que, creio, nunca tive assim.
Tudo me correu mal. Andei sempre com os nervos esfrangalhados, como se não conseguisse libertar-me daquilo que aconteceu ontem. Mesmo assim, mostrei sempre uma cara de bem-disposto.
Por fora, ninguém pareceu notar nada.
Continuei a fazer o que tinha de fazer, a andar, a falar, a comportar-me como se fosse um dia normal. Mas por dentro não me senti nada normal. O nervosismo acompanhou-me durante todo o dia e qualquer coisa parecia suficiente para me tirar ainda mais a calma.
Quando voltei a casa da Academia, reparei que tudo voltou ao normal.
Ou, pelo menos, parece ter voltado.
Ainda não vi o meu pai hoje, mas sei que jantou em casa e foi ao café. E talvez seja isso que me faz pensar que a tempestade passou.
Depois de uma noite como a de ontem, esta aparente normalidade sabe quase a silêncio.
Mas eu sei que o dia não foi normal.
Eu é que consegui esconder isso de toda a gente.
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