Um lugar onde o ruído se cala
Quinta-feira, 8 de Dezembro de 1977
Hoje teria muito para dizer, mas não o direi por escrito porque estou nervoso. Há coisas que ainda não consigo pôr em palavras.
Estive com a Lina e fiquei muito contente. Estar com ela faz-me bem de uma maneira que começo a perceber melhor. A sua presença consegue, por momentos, afastar aquilo que trago dentro de mim e dar-me uma espécie de tranquilidade que não encontro facilmente noutros lugares. Quando estou perto dela, parece que as coisas se tornam mais simples. Não porque os problemas desapareçam, mas porque deixam de ocupar todo o espaço.
Hoje precisava particularmente dessa proximidade.
Em minha casa aconteceu a maior discussão que houve até agora entre o meu pai e a minha mãe. Houve palavras duras e, depois, gestos que me obrigaram a intervir. Consegui separá-los, mas fiquei nervoso e abalado. Ainda sinto dentro de mim aquilo que aconteceu.
Mas, quando estou com a Lina, esse ruído fica mais longe.
Não preciso de lhe contar tudo para sentir que a sua presença me ajuda. Há uma proximidade entre nós que não depende apenas das palavras. É estar ao lado dela, saber que está ali, sentir-me bem por estar com ela. Talvez seja isso que mais me impressiona, num dia em que dentro de casa tudo parece desordenado, encontro nela um lugar onde consigo respirar.
E talvez seja também por isso que dou cada vez mais importância ao que existe entre nós. Não quero que seja apenas uma distracção para os problemas que tenho. Quero que seja uma relação em que possamos estar realmente próximos, falar, ouvir-nos e perceber aquilo que cada um sente.
Hoje percebo melhor como o silêncio pode ser pesado quando nasce da impossibilidade de falar, e como uma conversa pode ser importante quando há vontade verdadeira de resolver alguma coisa. Os problemas não desaparecem só porque se fala deles, mas quando as pessoas deixam de falar, quase sempre começam a crescer no espaço que fica vazio.
Talvez o diálogo não resolva tudo. Mas pode impedir que as palavras se transformem em violência, que os mal-entendidos se transformem em distâncias e que aquilo que podia ser dito calmamente acabe por explodir.
É isso que hoje sinto. Falar pode não ser suficiente, mas muitas vezes é o primeiro passo para que alguma coisa possa ser resolvida.
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