Simão - A “dor” do distanciamento

 

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 1977

O Simão é um personagem do meu estar. Talvez seja uma maneira de dizer aquilo que não consigo explicar de outra forma. Mas agora já não estou no meu estar e, por isso, o personagem também é outro.

Talvez seja por não me encontrar com a Lina.

Hoje percebo melhor o esforço que faço para cumprir aquilo que ela me pediu. Vejo-a e não saio do trólei para ir ter com ela. Consigo ficar onde estou, embora isso me custe muito. Não é fácil vê-la e continuar o caminho, quando tudo dentro de mim parece querer fazer exactamente o contrário.

Mas prometi-lhe que não o faria.

Quando a vejo, o meu coração acelera de tal maneira que quase parece querer sair do peito. É difícil explicar o que acontece num instante tão pequeno. Basta vê-la e tudo muda dentro de mim.

Vejo-a a atravessar a estrada a correr quando repara no trólei. Depois pára junto de uma montra, ficando de costas voltadas para mim.

E então acontece uma coisa estranha.

A montra faz-se espelho e, através dela, do trólei chega até mim a minha própria imagem. Ela está de costas para o trólei, mas, naquele reflexo, parece estar de frente para mim.

Por um instante, já não há distância.

O coração dela e o meu parecem formar um só. Mais forte, mais unido. Como se aquilo que nos separa fosse apenas uma coisa passageira e como se, naquele pequeno reflexo, ainda fosse possível estarmos juntos.

Esse instante dá-nos uma alegria de viver.

Depois, o trólei afasta-se.

E fica novamente a distância.

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