O sonho de “Simão”
Terça-feira, 6 de Dezembro de 1977
Enrolado nos seus trapos, lá no fundo, no lugar mais seco do barraco, Simão dorme.
Depois de um dia passado entre o frio, a rua e a miséria, talvez o sono seja a única coisa que ninguém lhe pode tirar. E, enquanto dorme, já não há barraco, nem paredes incompletas, nem roupa velha, nem livros desbotados pela chuva.
Simão sonha.
Talvez se imagine deitado num enorme leito de seda, tão grande que parece estar a boiar numa nuvem. À sua volta há luz, calor e espaço. Não existe ali a pobreza que o acompanha quando está acordado. O quarto é grande, iluminado e aquecido, e há dezenas de criados prontos a servi-lo.
Por momentos, aquele homem que vive entre restos pode possuir tudo aquilo que a vida real lhe nega.
Pela manhã, um canário acorda-o com o seu canto melodioso. Está diante da janela, a receber os primeiros raios de sol. A luz atravessa uma frincha das portadas e toca-lhe suavemente na pequena cabeça e nas penas amarelas.
O amarelo reflecte-se à sua volta, pálido e delicado.
Parece a chegada de uma pomba divina, portadora da alegria e da paz.
E Simão continua a sonhar.
Logo depois do despertar vem um criado robusto e negro trazer-lhe um roupão de fina seda vermelha. Outro abre os enormes cortinados e deixa finalmente entrar o sol. Um terceiro anuncia que está na hora do banho.
Oh, mas que banho!
E que cheiro...
Oh, que desilusão.
É só um sonho.
Simão volta-se para o outro lado e continua a dormir.
Por alguns instantes, porém, teve aquilo que não possui quando está acordado: uma vida diferente.
No sonho, ninguém lhe pede nada, ninguém o olha como um miserável, ninguém o obriga a aceitar o frio, a fome ou a solidão. Ali, Simão pode ser aquilo que talvez tenha imaginado ser um dia.
Depois acordará.
E tudo voltará ao seu lugar.
Mas, enquanto dorme, ninguém lhe pode tirar o direito de sonhar.
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