“Simão” retorna

 

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 1977

Vou voltar a falar de Simão.

Simão é um homem que se vê uma só vez e dificilmente se esquece. Há nele qualquer coisa que fica na memória, talvez porque tudo o que o rodeia parece contar a mesma história, a de um homem que já teve sonhos, pensamentos e talvez esperanças, mas que agora carrega consigo apenas aquilo que conseguiu conservar.

Debaixo de uma vasta barba esconde-se o rosto dorido de um homem que sonhou ver realizados os seus sonhos. Os olhos são límpidos, negros como carvão e penetrantes como os de um tigre. Há neles qualquer coisa que contrasta com o resto da figura, como se ainda existisse ali uma parte daquele homem que um dia acreditou poder ser diferente.

O cabelo acompanha a barba, desgrenhado e sem cuidado. Usa uns óculos que já foram novos e que agora assentam na ponta do nariz. São quase um objecto estranho naquela cara, como se pertencessem a uma vida anterior.

O pescoço é pouco desejável, meio escondido por um lenço que outrora terá tido outra utilidade. Agora serve apenas para proteger do frio e do calor. Os ombros são largos, mas estão cobertos por aquilo que já foi um casaco de moda e caro. Agora é apenas um casaco velho, daqueles que se conseguem no depósito depois de falar com o piquete. Com alguns remendos, ainda poderá durar o Inverno.

Uma mão está no bolso. A outra segura uma trouxa de roupa.

Simão segue pela rua abaixo.

Não pede.

Aprendeu na própria pele, nos próprios ossos, quão miserável é a situação de um pedinte. Talvez por isso prefira carregar aquilo que tem, por pouco que seja, a estender a mão aos outros.

E depois há o lugar para onde regressa.

Esse mesmo vulto, curvado pelo tempo, vai enrolado no vento e na noite até ao barraco que fica lá em baixo, junto ao moinho velho. Não é propriamente uma casa. Não tem dono e fica afastado da civilização. Por isso Simão escolheu aquele lugar.

Escolhe é talvez uma maneira demasiado simples de dizer isto. Mas, quando não se tem outro lugar, qualquer abrigo pode passar por escolha.

Aquela toca é ruína e abrigo ao mesmo tempo. Tem uma porta, três paredes de pedra e outra que é meia pedra, meia terra, meia madeira. E ainda outra porta. Tudo parece feito de restos, como se aquilo que ninguém quis tivesse acabado por formar uma casa para alguém.

O telhado tem uma particularidade, durante a noite, quando não chove, vêem-se as estrelas.

Talvez seja a única coisa daquele lugar que não pareça pobre.

Num canto mais escuro e seco jaz parte de uma porta, pousada sobre quatro pedras volumosas. Mais acima, numa entranha da parede, vê-se o toco de uma vela. E há ainda outra coisa, alguns livros sujos, desbotados pela chuva, guardados ali como se fossem objectos que ainda tivessem alguma coisa para dizer.

É esse o leito de Simão.

Um homem, uma trouxa de roupa, um velho casaco, uma vela, alguns livros e um abrigo onde as estrelas entram pelo telhado.

É assim que o vejo.

E talvez seja por isso que volto a falar dele.


Comentários