Um homem que morreu
Domingo, 4 de Dezembro de 1977
Morreu um homem, como morrem tantos outros todos os dias. A diferença é que este homem é o avô do meu amigo Manel. É isso que o torna particular para mim, embora, pensando bem, também seja igual a todos os outros que morrem sem que eu sequer saiba que existem.
Nem sequer cheguei a saber o seu nome e, sinceramente, não me interessa. Nunca falei com ele, nunca o conheci, não sei como era, o que pensava ou como vivia. Então, porque penso nele?
Talvez simplesmente porque morreu.
Hoje apresentei os meus pêsames ao Manel e fico contente por ele aceitar as minhas palavras. Digo-lhas com sinceridade, embora continue a achar estranho lamentar a morte de alguém que, para mim, nada significa. O que sinto, afinal, é pela dor do Manel. É ele que conheço. É nele que penso quando vejo a morte chegar tão perto.
E, no entanto, depois de dizer aquelas palavras, fico a pensar no homem que morreu.
Morre porque nada fez para a ultrapassar. Talvez tenha chegado a um ponto em que já não conseguia vencer aquilo que a vida lhe pôs diante dos olhos. A morte acabou por vencê-lo, mas há qualquer coisa de estranho nisso. É como se, ao morrer, ele também se libertasse das misérias que a vida lhe deu. Como se a morte fosse derrota e, ao mesmo tempo, uma espécie de vitória.
Não sei se isto faz sentido. Talvez nem eu próprio saiba exactamente o que quero dizer.
A morte parece-me mais complicada do que simplesmente deixar de existir. Não consigo imaginá-la apenas como um ponto final. Penso que, no “outro mundo”, esse homem será outro homem, com outra vida. Não sei como será, nem sequer sei se será assim. Mas é a maneira que encontro para imaginar aquilo que não consigo compreender.
Talvez seja também por isso que hoje penso tanto numa pessoa que nunca conheci.
No fundo, foi só um homem que morreu.
Mas, quando alguém morre, parece que a morte deixa por alguns instantes de ser apenas dele. Obriga os outros a olharem para a própria vida, mesmo sem quererem. Hoje aconteceu comigo.
E amanhã a vida continua, como sempre.
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